‘Wilson’, sucesso do cartunista Daniel Clowes, chega às telas

Por Marcelo Bernardes

Nas vinhetas que compõem a história de “Wilson”, a cultuada graphic novel de Daniel Clowes, lançada em 2010, conhecemos (e é difícil não se apegar a ele) um dos mais irascíveis misantropos da literatura moderna.

Wilson, protótipo do homem de meia-idade solitário, é um show de sátira espirituosa e esquisitice. Esse rabugento não tem auto-censura. Chama mulheres rechonchudas de ‘hipo'(pótamo). É obcecado por sua cadelinha Pepper, mas odeia aqueles que passam na rua e fazem comentários fofos direcionados à ela. Despreza ainda mais os tipos silenciosos. “Babaca filho da puta”, diz ele a um transeunte que passa batido pela cadela. Num táxi, quer que o motorista lhe diga aonde pode ‘pegar’ xoxotas na cidade. “Você quer putas?”, pergunta o taxista. “Sim. É que estou procurando minha ex-mulher!”, diz Wilson.

Depois de fazer uma ótima adaptação de sua graphic novel “Mundo Fantasma”, em 2001, (o filme batizado de “Ghost World  – Aprendendo a Viver” rendeu uma indicação para o Oscar de roteiro para o cartunista), Clowes também cuida da transposição de “Wilson” para as telas. “Wilson” foi lançado ontem (24) nos cinemas americanos, com o ator Woody Harrelson no papel título.

Woody Harrelson interpreta o anti-herói de Daniel Clowes em “Wilson” (Foto: Divulgação)

O resultado dessa vez decepciona. Boa parte da aflição e angústia do personagem, tão brilhantemente desenvolvida nas páginas da graphic novel, soa artificial e ganha sentimentalismo extra. Wilson teria mandado todo o humanismo que adquiriu na segunda metade do filme para o inferno. Parte da culpa pode ser creditada ao diretor Craig Johnson, da comédia “Irmãos Desastre” (“The Skeleton Twins”, 2014), que vacilou, não querendo ir mais a fundo na antipatia do personagem.

Com seus olhos arregalados, corpo esguio e o famoso espaço entre seus dentes da frente, não existe nada em Woody Harrelson que lembre Wilson fisicamente (Peter Sellers, se ainda vivo, seria perfeito), mas o ator faz um bom trabalho. O mesmo pode ser dito sobre a escolha da atriz Laura Dern para interpretar a ex-de Wilson, Pippi. Nas páginas da graphic novel, Pippi tinha uns bons quilinhos a mais.

Wilson (Woody Harrelson) e Pippi (Laura Dern) tentam reconectar-se com a filha (Isabella Amara) que não viam há 17 anos. (Foto: Divulgação)

Tanto no filme quanto na graphic novel, Wilson atravessa um período mais filosófico e sentimental, provocado pela morte do pai. Vai procurar a ex-mulher, que ficou viciada em drogas e caiu na prostituição. Agora em processo de reabilitação, ela tenta se reerguer. Trabalha como garçonete de um restaurante e vive numa casa bem cuidada. Ao se reencontrarem, Wilson fica sabendo que teve uma filha, e que esta hoje tem 17 anos. Wilson achava que a ex havia tido um aborto, mas essa revela que não só deu a luz à criança, como também a liberou para adoção. Wilson decide procurar a filha. Pippi vai junto. Os pais adotivos da garota Claire (Isabella Amara) são ricos, mas a adolescente  – esquisita e obesa – é motivo de bullying na escola. Reencontro feito, os três decidem fazer uma rápida viagem, com resultado inesperado.

Muitas das vinhetas de uma página de “Wilson”, lançado no Brasil pela Quadrinhos na Cia., foram recriadas no filme, sem qualquer alteração. Estão lá a cena em que Wilson decide falar com a mesma voz em falsete com aqueles que param para brincar com seu cachorro. Também encontros fortuitos em transportes públicos, quando vai sentar-se ao lado de algum infeliz, embora todos os outros assentos do ônibus ou trem estejam vazios. Num vagão de trem, ele puxa conversa com um passageiro imerso no som de seus fones de ouvido. Ao saber que este trabalha no ramo da T.I., Wilson retruca: “Tá de brincadeira? Eu estou muito envolvido em Z.Q.T. e I.P.K. e, naturalmente, muito H.B.T e A.F.G.N.X.L. Meu Cristo, já parou para pensar o quanto ridículo você é?” É uma pena que o mesmo espírito das páginas de “Wilson” não esteja naquele trem.

Uma das vinhetas da graphic novel “Wilson” (Foto: Reprodução)