Em livro, maquiador relembra ‘ereção’ de De Niro e gols de Pelé

Por Marcelo Bernardes

O jogador Pelé, durante os intervalos das filmagens de “Fuga Para a Vitória” (1981), levava o público de um estádio em Budapeste, na Hungria, ao delírio fazendo gols de bicicleta. A casa de Elizabeth Taylor era decorada por obras de arte “sérias” e a atriz mantinha um papagaio no quarto. O pequeno apartamento de um quarto de Sylvester Stallone, em Hollywood, era infestado de baratas. O cineasta John Huston jamais acordava cedo para filmar. Uma cláusula no contrato de Shirley MacLaine garantia que ela não trabalhava após às 18h. Mia Farrow sempre comia uma banana e fazia cara de entendiada enquanto um barrigão de grávida lhe era aplicado no set de “O Bebê de Rosemary” (1968). Robert De Niro roncava – durante a sessão de maquiagem de “O Touro Indomável” (1980). Quando acordava, não era mais o ator que estava ali, e sim o pugilista Jake LaMotta. Essas são algumas histórias da autobiografia “Makeup Man”, do maquiador californiano Michael Westmore, lançada terça (21) nas livrarias americanas.

Capa do livro, que chegou às livrarias esta semana. (Foto: Reprodução)

Westmore, 78, que ganhou um Oscar de melhor maquiagem em 1985, pelo filme “Marcas do Destino”, pertence à realeza dos maquiadores de Hollywood. Seu avó, George Westmore (1879-1931), um peruqueiro e barbeiro londrino estimado por muitos (o primeiro-ministro inglês Winston Churchill foi cliente), imigrou para os Estados Unidos em 1917, criando o primeiro departamento de maquiagem da história de Hollywood.

Vovô Westmore teve seis filhos. Toda a prole trabalhou em departamentos de maquiagem de estúdios de cinema concorrentes. Monte Westmore (1902-1940), pai do autor, ajudou a desenvolver as imagens de símbolo sexual de Rodolfo Valentino e Clara Bow. Ele também foi o responsável por criar o look “flapper”, conhecido no brasil como “estilo melindrosa”. Monte criou a cicatriz que o ator Paul Muni ostenta no filme “Scarface – A Vergonha de uma Nação” (1931). Cinco décadas mais tarde, o filho fez o mesmo trabalho em Al Pacino no remake “Scarface” (1983), dirigido por Brian De Palma.

Os tios de Westmore também se destacaram. Perc Westmore (1904-1970), trabalhou em “Casablanca” (1942) e cuidava pessoalmente da maquiagem de Bette Davis, que gostava de ficar bem à vontade na cadeira: sempre nua. Wally Westmore (1906-1973) trabalhou em vários filmes de Hitchcock e desenvolveu as sobrancelhas de Audrey Hepburn para o filme “Bonequinha de Luxo” (1961). Ern (1904-1967) cuidou da maquiagem de filmes noir de Hollywood e Bud (1918-73), além de trabalhar com Stanley Kubrick em “Spartacus” (1960), criou o protótipo da boneca Barbie em 1957.

No set de “Minha Doce Gueixa”, Westmore aplica maquiagem em Shirley MacLaine. (Foto: Paramount Pictures)

 

O tio caçula, Frank (1923-1985), que trabalhou no seriado de TV “Casal 20”, era mais invocado. Nas filmagens de “O Último dos Valentões” (1975), filme estrelado por Robert Mitchum, o produtor esqueceu de alimentar sua equipe em cena filmada tarde da noite. Frank voluntariou-se a comprar hambúrgueres para a produção. Na volta, negou um sanduíche para um figurante de barriga vazia chamado Sylvester Stallone. “Ele disse: ‘sai fora’ e meu deu as costas”, revelou Stallone à Michael Westmore, quando o último era entrevistado para o cargo de maquiador no filme “Rocky, Um Lutador” (1976).

Com Stallone, Michael Westmore manteve longa colaboração, cuidando da maquiagem de todos os “Rockys”, “Fuga Para Vitória”, com Pelé, e “Rambo – Programado Para Matar” (1983). “Rocky, um Lutador” ajudou a sedimentar a reputação de Westmore, que vinha de trabalhos menores ou freelancers com estrelas. O processo de aplicar base e uma fina prótese de plástico abaixo dos olhos de Sly Stallone, que criava a ilusão de macro-cortes e diversos estágios de cicatrização de hematomas, durava 20 minutos.

Westmore aplica maquiagem no rosto de Stallone. Ao fundo, o ator Burguess Meredith. (Foto: Divulgação)

Como se tratava de uma produção independente, o dinheiro era excasso. Para filmar uma cena na qual o personagem Rocky Balboa pratica golpes contra uma carcaça de boi dependurada por ganchos de ferro, a equipe do diretor John G. Avildsen entrou ilegalmente num abatedouro da Califórnia, de madrugada, quando funcionários já haviam saído. Como o sangue das carcaças fica coagulado e Stallone queria o efeito do líquido espirrando contra seu rosto, Westmore foi obrigado a improvisar. Criou duas bolsas de plástico com sangue falso. Mas como afixá-las? Foi quando o maquiador encontrou dois alfinetes no bolso da calça.

A morte do mentor de Balboa, Mickey, foi uma das últimas cenas a ser filmada. Por contrato, o ator Burguess Meredith tinha que sair do set às 18h. “Ele ficou ‘morto’ durante todo o tempo: em cena e nos intervalos – para descansar”, escreve Westmore. “Muito de vez em quando o ‘cadáver’ rompia o silêncio e perguntava para mim, preocupado: ‘menino, que horas são?’”, conclui o maquiador.

Shirley MacLaine era outra que não trabalhava após as 18h. Westmore caiu de paraquedas no set de “Minha Doce Gueixa” (1962). Seu tio, Frank, teve um ataque cardíaco durante as filmagens, e MacLaine ficou sem seu maquiador favorito. “Ela tem um jeito hiperativo de ser e, logo de cara, disse que eu tinha apenas 20 minutos para aplicar-lhe a maquiagem, processo, que facilmente, duraria uma hora para ser realizado”, lembra Westmore. Mais tarde, MacLaine explicaria ao maquiador que ela tinha problemas nas costas e não aguentava ficar muito tempo sentada. Em certas ocasiões, MacLaine abandonava o trailer de maquiagem com o trabalho incompleto. “Tinha que encontrá-la, com a cena para começar, para aplicar uma sobrancelha que faltava. Surpresa, ela usava sua frase preferida: ‘oh, merda!’”

No set do faroeste “Sangue em Sonora” (1966), Marlon Brando tinha que interpretar um personagem de linhagem indígena. Segundo Westmore, que era assistente de maquiagem, o ator queria tingir o cabelo de preto (ou usar uma peruca), alargar as narinas e ter uma protuberância na ponta do nariz. Não bastasse isso, queria uma maquiagem para torná-lo moreno e um dente de ouro. Len Wasserman, o chefão do estúdio, viu as filmagens dos testes de maquiagem e espumou: “Não, não, não. Eu pago um milhão de dólares para ver Brando, e agora não posso enxergá-lo por debaixo de toda aquela maquiagem”, escreve Westmore. O patrão venceu.

Westmore com uma das oito próteses criadas para o filme “Marcas do Destino”, que lhe rendeu o primeiro e único Oscar.

A categoria do Oscar de melhor maquiagem foi instituída pela Academia de Hollywood em 1981. Westmore ganhou sua primeira e única estatueta em 1985 (dividida com o colega Zoltan Elek), depois de ser contratado pelo diretor Peter Bogdanovich para criar a complicada maquiagem do filme “Marcas do Destino”. Na produção (“que só saiu da prancheta por causa que Cher era considerada ‘the money’”), o ator Eric Stoltz interpreta Roy Lee “Rocky” Dennis, o garoto americano que sobreviveu até os 16 anos de idade com a raríssima doença displasia craniometafisária, na qual o cálcio que é distribuído no corpo fica concentrado no crânio, alargando e distorcendo as feições faciais.

A mãe de Rocky, que doou o crânio do filho para a Universidade de Stanford, permitiu que Westmore o estudasse. Antes mesmo de Stoltz ser contratado para o papel, Westmore desenvolveu uma réplica de cera da cabeça, com olhos de vidro e uma peruca ruiva. Oito versões foram criadas até chegar-se a definitiva. Maquiadores tinham um desafio extra: os olhos de Stoltz eram muito próximos um do outro. A última fase da maquiagem que durava três horas e meia consistia na aplicação de sardas e marcas de acne no rosto do ator.

Eric Stoltz e a atriz Laura Dern em cena de “Marcas do Destino”. (Foto: Divulgação)

Ao todo, Westmore teve quatro indicacões para o Oscar e 42 para o Emmy. Ele venceu 9 estatuetas Emmy, cinco delas pelos spinoffs de “Jornada nas Estrelas” e que consumiram boa parte de sua carreira – “Star Trek: A Nova Geração” (1987), “Deep Space Nine” (1993) e “Voyager” (1995).

Um dos trabalhos mais importantes da carreira de Westmore foi “O Touro Indomável” (1980), do diretor Martin Scorsese, com quem o maquiador havia trabalhado anteriormente em “New York, New York” (1977). Ao contrário do pugilista Rocky Balboa de Stallone, o Jake LaMotta de De Niro era um esportista verdadeiro e que acompanhou boa parte das filmagens, até Scorsese expulsá-lo do set por opinar demais.

A maquiagem de De Niro também era mais complicada. O ator precisava de várias próteses de látex no nariz, assim como os mais diversos tipos de cortes e hematomas no rosto. O trabalho de Westmore no filme começou oito meses antes das filmagens. Para que não fosse fotografado por paparazzi, De Niro se submetia às sessões de testes de maquiagem na casa de Westmore. “Ele ficou tão íntimo, que chegava e abria a geladeira, procurando por comida”. Nos intervalos, De Niro desenvolveu uma ligação afetiva com a filha de dois anos do maquiador. Mais tarde, o ator sugeriu que a menina interpretasse a filha do lutador do filme.

Westmore discute a maquiagem de De Niro com o diretor de fotografia Michael Chapman. (Foto: United Artists)

Depois que as filmagens das cenas de luta acabaram (o treinador de De Niro disse que o ator ficou tão preparado que podia participar de uma ou duas lutas oficiais de boxe), um outro maquiador e amigo de Westmore havia desenvolvido uma barriga postiça para o ator usar na fase em que LaMotta fica totalmente fora de forma. Não foi preciso: comendo muito macarrão e comida tailandesa em restaurantes de Los Angeles, De Niro saltou naturalmente de 68 para 97 quilos. Durante as cenas filmadas em Nova York, a equipe ficava alojada no hotel Mayflower, no centro da cidade, onde também o balé russo se hospedava. “Morríamos de medo de que, algum dia, um dos bailarianos parasse a gente e pedisse para desertar”, conta Westmore.

Pelo fato de o filme ter sido rodado em preto-e-branco, o sangue criado por Westmore era um xarope de chocolate. Mas este resolveu adicionar sangue verdadeiro na mistura, deixando-a pegajosa. Como as cenas de lutas não eram feitas em um só take, o trabalho para limpar o corpo de De Niro era demorado.

No último dia de filmagens, Westmore encontrou dois estranhos no set. Veio a saber que um deles era um dublê para De Niro e o segundo, um fluffer, o profissional que atua na indústria de filmes pornôs e cuida da manutenção da ereção dos atores. Jake LaMotta havia explicado à Scorsese que tinha de se abster sexualmente, para se preservar, nas vésperas de suas lutas. Para se livrar de ereções indesejadas – e elas sempre ocorriam – LaMotta enfiava o pênis num balde de gelo. Scorsese queria muito a cena no filme, mas De Niro se recusou a ter um close-up de suas partes mais íntimas imortalizadas na tela. O diretor então a filmou com dublês, mas a cena nunca chegou a fazer parte da versão americana do filme.