Governo Trump impulsiona venda de livros sobre futuro distópico

Por Marcelo Bernardes

Clássicos da literatura sobre futuros distópicos experimentam um ressurgimento em suas vendas nos Estados Unidos desde que Donald J. Trump assumiu a presidência do país no dia 20 de janeiro.

Nesta semana, “1984”, livro de George Orwell lançado originalmente em 1949, tornou-se o mais vendido nos EUA segundo lista dos best sellers compilada pelo jornal “USA Today”. O aumento nas vendas foi de impressionantes 9.500%. Para atender a demanda, a editora americana do livro, a Signet Classics, encomendou a impressão de 500 mil novas cópias. “Para colocar o número em perspectiva, nós imprimimos em apenas uma semana mais cópias de ‘1984’ do que vendemos num ano inteiro”, explicou Craig Burke, assessor de imprensa da Signet, ao jornal “USA Today”. Segundo dados oficiais, a Signet vende 400 mil cópias deste título de Orwell por ano.

Clássicos futuristas de volta na lista dos mais vendidos. (Foto: Reprodução)
Clássicos futuristas de volta na lista dos mais vendidos. (Foto: Reprodução)

O empurrão final nas vendas de “1984” se deve ao fato da polêmica dos “faltos alternativos”, termo usado por Kellyanne Conway, chefe da campanha de Donald Trump e que agora integra o time de consultores do presidente, ao defender o colega Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, na disputa em estilo “cabeça-dura” de que a posse de Trump não atraiu multidão menor que a de Barack Obama.

Embora imagens captadas por agências de notícias claramente mostravam a diferença, Spicer, durante um briefing na Casa Branca, mentiu aos jornalistas, oferecendo estatísticas dúbias de que a posse de Trump foi um sucesso de público. Alguns dias depois, num programa de TV, Kellyanne Conway chocou o público ao dizer que Spicer não havia mentido, mas que tinha oferecido aos jornalistas “fatos alternativos”.

A obra de Orwell mostra um governo totalitário na figura de um “Grande Irmão” que espiona seus cidadãos e os força a “duplipensar”, ou aceitar versões contraditórias da verdade. O personagem Winston Smith, que trabalha para o “ministério da verdade”, escreve a história por meio de mentiras.

Por conta do impulso das vendas de “1984”, a Signet Classics também encomendou a impressão de 100 mil cópias de outro livro de Orwell, “A Revolução dos Bichos”, que se encontra atualmente na 118o. posição na lista dos mais vendidos. Em ‘A Revolução dos Bichos’, animais se rebelam contra seus donos e a revolução abre espaço para uma tirania ainda mais opressiva que a praticada pelos humanos.

Outros livros sobre futuro distópico que tomaram carona na polêmica dos “fatos alternativos” são “Origens do Totalitarismo”, de Hannah Arendt (25a posição dos mais vendidos do ‘USA Today’); “It Can’t Happen Here”, de Sinclair Lewis (43o. lugar), sobre um presidente que se torna ditador; e “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley (59a. posição), no qual as pessoas são biologicamente pré-condicionadas a viverem em harmonia com as leis e regras sociais.

“O Conto da Aia”, premiado livro da escritora canadense Margaret Atwood, também beneficiou-se com a atual situação política americana. Desde a eleição de Trump, a obra teve aumento de 30% em suas vendas. A 52a. impressão do livro vem com nova tiragem de 100 mil cópias. O interesse também pode ser creditado ao fato de a companhia de streaming Hulu ter produzido uma nova adaptação do livro para a TV, um seriado de dez capítulos estrelado pelos atores Joseph Fiennes e Elizabeth Moss e que estreia em abril nos EUA.

Atriz Elizabeth Moss em cena do seriado "The Handmaid's Tale" (O Conto de Aia), que estreia em abril nos EUA. (Foto: Hulu)
Atriz Elizabeth Moss em cena do seriado “The Handmaid’s Tale” (O Conto da Aia), que estreia em abril nos EUA. (Foto: Hulu)

Lançado originalmente em 1985, “O Conto da Aia” acompanha a história de um regime totalitário num futuro próximo que, entre outras ações, é responsável por extinguir os direitos civis das mulheres.

Nem só Trump dita as tendências na lista dos best sellers. Hollywood também impulsionou a venda de dois livros. Respectivamente em segundo e terceiro lugares entre os mais vendidos da semana estão os livros “Quatro Vidas de um Cachorro”, de W. Bruce Cameron”, e “Estrelas Além do Tempo”, de Margot Lee Shetterly, cujas adaptações cinematográficas se encontram atualmente em cartaz nos cinemas.

E vale lembrar que “fatos alternativos” também virou um hit da moda. Várias companhias de camisetas capitalizaram em cima da polêmica e criaram peças que estampam o termo.

Exemplos de modelos de camisetas com o termo do momento nos EUA. (Reprodução)
Exemplos de modelos de camisetas com o termo do momento nos EUA. (Reprodução)