‘Maconha-chic’: TV americana investe no tema da legalização

Por Marcelo Bernardes

Em “Mary + Jane”, novo sitcom da MTV americana, lançado ontem à noite (5) nos EUA, Paige (Jessica Rothe) e Jordan (Scout Durwood) são grandes amigas que moram juntas num apartamento em bairro boêmio de Los Angeles. Elas dividem o espaço com um cachorrinho chamado Daniel Day-Lewis (que adora destruir as calcinhas de uma, e fazer sexo com uma almofada) e também comandam, em sociedade, um serviço “quase legal” de entrega de maconha medicinal. Dentro do universo do cannabis sativa, essa duplinha se auto-denomina como “ganja-preneurs”, trocadilho com o nome como a maconha é conhecida na Jamaica com a palavra empreendedor.

A loira Paige é a mais romântica delas. Ela ainda tenta emendar o coração recentemente despedaçado por um grafiteiro de sucesso chamado Softs3rve, cujo trabalho é “parecido com o do Bansky”. No passado não muito distante, Paige sustentava a arte do namorado, pagando por suas tintas. Mas foi só Taylor Swift “instagramar” a imagem de um sorvete de casquinha produzido pelo grafiteiro, para ela levar o pé na bunda – e o trabalho paralelo dele de DJ ter seu cachê elevado.

Paige. (Foto: Divulgação)
As atrizes Jessica Rothe e Scout Durwood em foto promocional do seriado “Mary + Jane”. (Foto: Divulgação)

Já a morena Jordan é uma espécie de Samantha Jones, de “Sex and the City”: aventureira, predadora e promíscua. O apetite voraz dela pelo sexo só se iguala ao incessante prazer que sente em fumar um baseado. Jordan tenta explica à melhor amiga que sexo com estranhos cura tudo: “de dores de cabeça, cólicas menstruais, doença de Lyme ao tédio”.

Para serem consideradas legítimas no mundo do tráfico, a dupla precisa entrar na lista dos ‘Green 15’, ou seja, um app que lista os 15 melhores “distribuidores” de maconha em Los Angeles. Um concorrente que elas desprezam galgou várias posições nessa lista, depois de ter feito uma selfie “com um dos maiores maconheiros do mundo: o ator Seth Rogen”.

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A grande chance delas surge quando Jordan recebe uma mensagem de texto para entregar maconha na casa de um casal de atores de Hollywood. A atriz é vencedora do Oscar de melhor coadjuvante e, segundo Paige: “deve ter recebido também o Nobel da Paz”. O ator, apaixonado por arquitetura, “reconstruiu o Haiti com as próprias mãos”. A dupla tem meia dúzia de filhos adotados de culturas diferentes. Qualquer semelhança como o casal Brangelina, isto é, Brad Pitt e Angelina Jolie, não é mera coincidência. Quando finalmente faz a entrega para o casal, Jordan acredita estar altamente chapada: Pitt e Angelina são literalmente um peru de penugem loira e um esqueleto de cabelo preto lustroso. “Por trás da maquiagem, somos um casal bem normal”, explica a esqueleto à traficante. “Angelina” também diz que adora “dar força para as mulheres que comandam seus próprios empreendimentos”.

Casal Brad Pitt e Angelina Jolie compram maconha de personagem de "Mary + Jane" (Foto: Reprodução)
Casal Brad Pitt e Angelina Jolie compra maconha de personagem de “Mary + Jane” (Foto: Reprodução)

“Mary + Jane” tem produção-executiva de um legítimo “ganja-preneur”, o rapper Snoop Dogg, fundador da marca de maconha e produtos derivados Leafs by Snoop (Folhas por Snoop). O “template” do novo show da MTV é o seriado “Broad City”, sucesso do canal Comedy Central, sobre duas amigas, judias nova-iorquinas, interpretadas pelas engraçadíssimas Ilana Glazer e Abbi Jacobson, que não têm maiores ambições na vida do que se divertirem com sexo e entorpecentes. O resultado final de “Mary + Jane”, porém, não se equipara a “Broad City”, que chegou a ter uma participação especial da candidata à Casa Branca, a democrata Hillary Clinton, em um de seus episódios. O roteiro do show da MTV é “millennial” demais: auto-centrado, repleto de citações de cultura pop, mas muitas delas não bem polidas. Também falta um melhor acabamento para as personagens principais.

O sucesso de “Mary + Jane” vai depender também de como o público irá reagir à exploração que a TV promete fazer da nova cultura mainstream da maconha, impulsionada pela legalização do cânhamo medicinal em alguns estados americanos desde 2012. Depois de “Broad City”, que foi uma websérie apresentada pelo YouTube entre 2010 e 2011, outro show da internet, o “High Maintenance”, apresentado pela Vimeo, entre 2012 e 2015, está migrando para a TV.

A partir de 16 de setembro, a HBO vai apresentar seis novos episódios de “High Maintenance”, que é produzido pela dupla Katja Blichfeld e Ben Sinclair, este último também protagonista do programa, que acompanha as aventuras de um traficante de maconha em Nova York. A série que, enquanto na web custava US$ 1 mil para ser produzida, chegou a ter a participação de atores famosos como o galã inglês Dan Stevens, o Matthew Crawley de “Downton Abbey”.

Bem Sinclair é um traficante de maconha em Nova York na série "High Maintenance", que estreia semana que vem na HBO (Foto: Divulgação)
Ben Sinclair é traficante de maconha em Nova York na série “High Maintenance”, que estreia semana que vem na HBO (Foto: Divulgação)

A Amazon e o Netflix também preparam seus projetos cannabis para 2017. A comediante Margaret Cho produz para a Amazon a série “Highland”, um ‘dramedy’ (comédia-dramática) de uma hora de duração sobre uma mulher (Cho) que sai de um rehab obrigatório e volta a lidar com a família, que comanda centro de comercialização de maconha. Já Chuck Lorre, o famoso criador do sitcom “Two and a Half Men”, está desenvolvendo o seriado “Disjointed” para a Netflix. Nele, a atriz Kathy Bates interpreta uma veterana ativista pela legalização da maconha que agora comanda seu próprio dispensário em Los Angeles, junto com o filho e um guarda-costas problemático, ambos chapadões. A Netflix gostou tanto do roteiro que encomendou um total de 20 episódios.