Em Cannes, Sonia Braga tenta “entender” nova fase

Por Marcelo Bernardes

A atriz Sonia Braga chegou a Cannes na tarde de sábado (14), onde vai participar da exibição do filme “Aquarius”, do cineasta pernambucano Kléber Mendonça Filho, primeiro representante brasileiro na competição oficial do festival francês desde 2008. A produção será apresentada na tarde de terça (17).

A atriz Sonia Braga, em Nova York, um dia antes de embarcar para Cannes. (Foto e maquiagem: Nei Cruz)
A atriz Sonia Braga, em Nova York, um dia antes de embarcar para Cannes. (Foto e maquiagem: Nei Cruz)

Trata-se da quinta vez que Sonia participa do Festival e a terceira que estampa (sozinha) o pôster de um filme em exibição em Cannes. O primeiro deles foi “Eu Te Amo”, de Arnaldo Jabor, apresentado na mostra paralela Un Certain Regard em 1981. A segunda com “O Beijo da Mulher Aranha”, de Héctor Babenco, em competição oficial em 1985, e no qual Sonia interpretou três personagens secundários.

Com ”Aquarius”, a sensação é bem diferente. Sonia interpreta o papel central do filme. A foto do cartaz já apareceu com grande destaque no jornal The Los Angeles Times e nas publicações voltadas para a indústria de entretenimento Variety e The Hollywood Reporter. O filme ainda ganhou grande destaque no jornal The New York Times. “Voltar a Cannes 35 anos depois, com um filme em competição, com uma personagem central, é muita coisa, é muito bom, é muito estranho. Acho que não entendi muito ainda”, disse Sonia na quinta (12), em Nova York, antes de embarcar.

Em reportagem do Los Angeles Times de quarta (11), jornal destaca filmes "Aquarius", de Kléber Mendonça Filho, e "The BFG", de Steven Spielberg, como atrações esperadas em Cannes. (Foto: Reprodução)
Em reportagem do Los Angeles Times de quarta (11), jornal destaca filmes “Aquarius”, de Kléber Mendonça Filho, e “The BFG”, de Steven Spielberg, como atrações esperadas em Cannes. (Foto: Reprodução)

Sonia pisou na Croisette (“uma avenida que corre para lá e corre para cá”, define) pela primeira vez em 1981 com “Eu Te Amo”. Sem falar uma palavra em inglês ou francês, contou com a ajuda do amigo Fabiano Canosa que, por muitos anos, representou o cinema brasileiro nos Estados Unidos e na Europa. Foi de calça jeans, tênis, camisa xadrez e um pulôver azul claro (“que minha mãe tinha feito para mim”) que Sonia participou de algumas entrevistas.

O artigo que ajudaria a abrir-lhe as portas de Hollywood nem foi uma entrevista. Muito menos Sonia conheceu (previamente) o jornalista que o escreveu. Depois de assistir “Eu Te Amo” no festival, Jack Kroll, lendário crítico de cinema da revista Newsweek, voltou para a redação em Nova York e fez um balanço da folia cinematográfica de 15 dias de duração. No artigo, uma única foto: a de Sonia, com a legenda “veia cômica e coragem sexual num novo tipo de estrela”. No texto, a efusiva comparação aparecia em sua totalidade: “Primeira estrela verdadeira pós-Sophia Loren, (Sonia) é uma mulher de beleza resplandecente e energia que combina a veia cômica de Carole Lombard com uma coragem sexual explícita que faz Marlon Brando em ‘O Último Tango em Paris’ parecer ‘O Pequeno Lorde’”.

O artigo "balanço do Festival de 1981" escrito por Jack Kroll da Newsweek e que ajudou abrir as portas de Hollywood para Sonia. (Foto: Reprodução)
O artigo “balanço do Festival de 1981” escrito por Jack Kroll da Newsweek e que ajudou abrir as portas de Hollywood para Sonia. (Foto: Reprodução)

Foi por conta do artigo, que Sonia conheceu um dos chefões do estúdio MGM, que tinha os direitos internacionais do livro “Gabriela”, de Jorge Amado. Durante essa visita ao estúdio com sede em Culver City, Califórnia, a atriz, enquanto almoçava na lanchonete da MGM, viria a conhecer um de seus grandes ídolos, o cineasta Billy Wilder, de “O Crepúsculo dos Deuses”.

A primeira vez de Sonia em Cannes também marca uma das lembranças mais vívidas na memória da atriz. Ela explica que caminhava sozinha, triste e quase chorando (“tinha terminado com um namorado”) na Croisette de volta para seu hotel, num vestido preto do costureiro Markito (“ele fez para mim esse vestido curto, corte anos 40, clássico em paetê, manga cumprida até o punho”, diz), quando foi interpelada por “um homem muito bonito”. “Na época, fumava muito. Esse homem, me vendo andar sozinha, na garoa, me parou e disse: ‘posso lhe ajudar?’ E eu respondi: ‘sim, você tem fogo?’” E o caminhar de ambos continuou…

Sonia voltou já famosa em Cannes em 1985, na companhia de Babenco e dos atores de “O Beijo da Mulher Aranha”: William Hurt, Raul Julia e Denise Dumont. Ela ficou num dos hotéis principais (o Majestic), usou outro tipo de roupa de Markito (“ele tinha uns vestidos bem abusados também e alguém chegou a dizer, sem muita noção, que a roupa parecia Las Vegas demais”) e deu entrevistas das 9h às 22h. Numa delas, sentada à beira da piscina e ainda sem dominar o inglês, conversou longo período com um jornalista britânico sobre “um monte de coisa: de América Latina ao significado da profundidade”. “Depois de quase uma hora conversando, perguntei ao jornalista: ‘você entende o que estou falando?’ E ele: ‘nenhuma palavra. Mas tudo soa tão interessante e lindo, que vou tentar entender mais tarde”.

O júri do Festival de Cannes, que deu a William Hurt o prêmio de melhor ator (o representante da ex-Iugoslávia “Quando Papai Saiu em Viagem de Negócios”, de Emir Kusturica, ganhou a Palma de Ouro), era formado, entre outros, pelos cineastas Milos Forman (presidente), Mauro Bolognini, o diretor de fotografia Nestor Almendros e o escritor Jorge Amado. “De tarde, depois que Jorge cumpria seus deveres de júri, Zélia (Gattai), ele e eu andávamos pela Croisette. Ele me dava alguns conselhos sobre coisas do coração. Devo dizer que Jorge era péssimo de conselhos do tipo”, brinca Sonia.

Sonia Braga e Raul Julia em cena de "O Beijo da Muher Aranha", de Héctor Babenco (Foto: Reprodução)
Sonia Braga e Raul Julia em cena de “O Beijo da Muher Aranha”, de Héctor Babenco (Foto: Reprodução)

Na festa da premiere de “O Beijo”, Sonia não se lembra, mas o crítico Leon Cakoff registrou, em artigo escrito para a Folha, que ela foi elogiada por Clint Eastwood. Cinco anos mais tarde, Eastwood dirigiria Sonia no filme “Rookie – Um Profissional do Perigo”.

Em 1986, Sonia voltou a Cannes fazendo parte do júri da competição oficial. Para se vestir durante os 12 dias do festival, teve ideia prática: pediu para que um designer italiano fizesse especialmente um terno black tie masculino especialmente para seu corpo. Para a abertura do festival, o vestido de decote muito aberto atrás (“usei uma jaqueta de couro por cima”) foi emprestado pela mulher de um grande amigo de Sonia, Sean Ferrer, filho da atriz Audrey Hepburn com o ator e diretor Mel Ferrer.

Sonia havia passado quase um ano promovendo “O Beijo da Mulher Aranha” ao redor do mundo, e com grande ênfase no mercado americano. A trajetória publicitária de todos os envolvidos no filme culminou com quatro indicações do filme para o Oscar: William Hurt ganhou o prêmio de melhor ator; e Sonia e Raul Julia foram indicados para o Globo de Ouro. Durante o circuito de promoção, a atriz cruzava com as mesmas pessoas que também tinham filmes na época: Bernardo Bertolucci, o produtor David Puttnam (“Carruagens de Fogo), István Szabó e Neil Jordan, entre outros. “Neil é diferentão. Tem uma cabeça incrível. Para uma pessoa com barreiras de idioma como eu na época, entendia tudinho o que ele falava com seu sotaque irlandês. Cheguei a pedi-lo em casamento. Ele disse ‘não’. E eu: ‘então, tá!”

O presidente do júri de Cannes 1986 foi Sidney Pollack, o cineasta que havia derrotado “O Beijo” no Oscar de melhor filme como “Entre Dois Amores”, um ano antes. Eram também jurados o cantor Charles Aznavour, o diretor de fotografia Tonino Delli Colli, a cineasta Danièle Thompson e Szabó. “Uma coisa fantástica de ser júri, e que adquiri depois de participar dele, foi a disciplina de ir ao cinema, a oportunidade de sentar e se entregar aos filmes. Julgá-los, porém, é uma coisa que ainda tenho certos problemas: como é que você pode falar que um é melhor que o outro?’’ De todos os filmes que assistiu naquele festival, o que mais chamou a atenção de Sonia foi “Daunbailó”, do cineasta americano Jim Jarmusch. “Era o filme mais parecido comigo”, diz a atriz. Jarmusch saiu de mãos abanando da premiação: a produção inglesa “A Missão”, de Roland Joffé e estrelada por Jeremy Irons e Robert De Niro, ganhou a Palma de Ouro.

Sonia se recusa a revelar as discussões que o júri teve até chegar aos nomes finais (“acho chato e indiscreto”). Também prefere não discutir se fez lobby para o prêmio de melhor atriz ir parar nas mãos de Fernanda Torres, por “Eu Sei Que Vou Te Amar”. Este filme, dirigido por Jabor, chegou a ter Sonia como uma estrela (ao lado de José Wilker) em seu primeiro estágio. O diretor depois optou por uma nova direção para o projeto, com Fernanda e o ator Thales Pan Chacon. Em entrevista à Folha, um dia depois de ganhar o prêmio, Fernanda disse que tinha “certeza” que Sonia “trabalhou o resto do júri” para premiá-la. Fernanda dividiu o prêmio de interpretação com a atriz alemã Barbara Sukowa, por “Rosa Luxemburgo”.

As três passagens anteriores por Cannes não prepararam Sonia em nada para o pandemônio desenrolado em 1988, quando ela, já dominando o inglês, voltou a Croisette para promover “Rebelião em Milagro”, dirigido pelo ator Robert Redford. Era a primeira vez que Redford pisava em Cannes (o filme foi exibido fora da competição e teve uma reação tépida por parte dos críticos), chegando diretamente de Moscou, onde havia discutido novas parcerias cinematográficas. Sonia e a atriz Melanie Griffith, ambas no elenco do filme, vieram diretamente de Los Angeles. “Quando a gente começou a se aproximar da antiga sede do Palais du Cinéma, vi que a coisa era muito grande. Pela primeira vez, estava dentro de uma gritaria ensurdecedora: era uma multidão ali para ver o Robert”, explica Sonia que também nunca tinha participado de uma coletiva de imprensa tão “abarrotada de gente”.

As atrizes Melanie Griffith e Sonia Braga, dirigidas por Robert Redford em "Rebelião em Milagro", exibido em Cannes em 1988. (Foto: Reprodução)
As atrizes Melanie Griffith e Sonia Braga, dirigidas por Robert Redford em “Rebelião em Milagro”, exibido em Cannes em 1988. (Foto: Reprodução)

Nem Redford nem Sonia foram para uma festa pós-première. Eles já haviam previamente combinado um jantar só para os dois nos arredores da cidade. “Ninguém sabia, nem mesmo nós, que estávamos começando a namorar”. Sem tempo de poder trocar por uma roupa mais simples, Sonia improvisou com uma “roupinha Braga”. Usei um tecido lindo por cima de um vestido preto italiano e depois o tirei no caminho do restaurante”.

Em 2010, para a apresentação especial dos 25 anos de “O Beijo da Mulher Aranha”, Sonia esteve em Cannes mais uma vez. Babenco e o produtor do filme, o americano David Weisman, também participaram da exibição de uma cópia restaurada. “O Festival fez uma recepção muito incrível, fomos tratados com a mesma importância de 25 anos antes”, diz a atriz. “A parte triste foi que Raul (Julia) não está mais entre a gente. Raul (morto em 1994, aos 54 anos de idade) era amigo, muito querido, e parte extremamente importante do filme”, diz Sonia.

Nas duas últimas semanas, antes de embarcar para Cannes, Sonia frequentou o salão do cabelereiro Hélio de Souza (novo corte de cabelo) e se encontrou algumas vezes com o designer americano Narciso Rodriguez, que criou especialmente para a atriz o vestido burgundy que ela vai usar na premiere do “Aquarius” na terça (17). Sonia também vai vestir outras roupas de Narciso durante o Festival. “Se você olhar os vestidos publicados nas páginas da revista Vogue ao longo das décadas, vai notar que os melhores são os mais simples. Narciso é assim também: um designer que transforma a simplicidade em algo bonito e de muito bom gosto”.

Sobre Kléber Mendonca Filho, Sonia diz que fica difícil de quantificar publicamente a importância dele na “linha do tempo” da carreira dela. “Em exatamente um ano, ele se transformou numa pessoa muito amiga, se revelando um cineasta de pensar diferente, e que está me proporcionando, talvez, a mais importante experiência artística de minha vida desde “O Beijo da Mulher Aranha”. Realmente, ainda estou tentando entender tudo isso.”