A nova onda de crimes que vem assustando os nova-iorquinos

Por Marcelo Bernardes

A costureira Carmen Rivera, 71, mantem o mesmo comportamento, todas as manhãs, por volta das 7h (10h horário de Brasília), quando pega o metrô perto de sua casa em Borough Park, bairro do Brooklyn, para ir ao trabalho no Garment District (Região da Roupa), área no lado oeste de Manhattan, entre as ruas 34 e 42, um trajeto de 25 minutos. Ela encontra um lugar para sentar e, como boa nova-iorquina, procura, sempre que pode, “cuidar da própria vida”, evitando a troca de olhares fortuitos com outros passageiros.

Foi assim, alheia à movimentação de outros usuários da linha D do metrô, que Rivera não conseguiu antever um ataque, o primeiro experimentado por ela em Nova York. “Um rapaz meio que caiu em cima de mim e cortou meu rosto. Não percebi nada até ele me atacar. Depois, como se tivesse asas escondidas em seus sapatos, ele voou para fora do trem, sem que ninguém tivesse chance de contê-lo”. O rasgo do lado esquerdo do rosto da costureira, feito por uma navalha, foi de dez centímetros de comprimento, e foram necessários 20 pontos para a sutura. O ataque aconteceu quando o trem passava por uma região nobre da cidade, o NoHo, onde ficam restaurantes e lojas da moda e condomínios milionários de arquitetura moderna premiada.

Primeira página do jornal "Daily News" de terça, 26, sobre o ataque da costureira. (Foto: Reprodução)
Primeira página do jornal “Daily News” de terça, 26, sobre o ataque da costureira. (Foto: Reprodução)

Não muito longe dali, no final da tarde de sábado, dia 16, o assistente público Anthony Christopher-Smith, 30, andava por uma rua do East Village, bairro repleto de bares e restaurantes com preços módicos, para se encontrar com amigos para o jantar, quando um homem asiático passou por ele e, depois de dizer, “vá se foder, estou cansado dessa merda”, o empurrou contra a parede e cortou-lhe o rosto com uma faca. O ferimento do lado direito do rosto de Christopher-Smith foi de 15 centímetros, extendendo-se da orelha até os lábios. A incisão foi tão profunda que os médicos precisaram de oito horas para concluir a operação que deixou a vítima com 150 pontos. Por ter atingido certos nervos faciais, Christopher-Smith só vai poder voltar a sorrir novamente daqui a seis meses.

O assistente social Christopher-Smith mostra seu ferimento à reportagem da rede CBS. (Foto: Reprodução)
O assistente social Christopher-Smith mostra seu ferimento à reportagem da rede CBS. (Foto: Reprodução)

Os nova-iorquinos se encontram em alerta contra o novo “o crime da temporada”. Desde outubro, 11 pessoas foram vítimas de cortes no rosto feitos por facas ou navalhas afiadas. Há dois anos, a cidade enfrentava uma onda de ataques nas estações de metrô, cujo modus operandi era o de a vítimas serem empurradas em direção aos trilhos, em alguns casos com o trem quase chegando na estação. Agora a onda é ter o rosto retalhado, em ataques sem qualquer provocação ou motivo aparente. O conselho deste blogueiro: fique ligado em quem passa perto de você na rua ou movimentos abruptos de pessoas no metrô. Experts aconselham que pedestres e usuários do metrô não fiquem imersos em seus celulares ou ouvindo música alta. Uma troca de olhares mais longa pode fazer com que o agressor se intimide e procure outra vítima ou até mude de ideia. Outra recomendação é que a vítima reaja ao ataque, gritando e chamando a atenção das pessoas próximas, para que o agressor possa ser reconhecido e capturado mais rapidamente.

Crimes em grandes cidades que seguem um padrão em sua execução geralmente desencadeiam o famoso efeito “copycat”, a imitação. Bill Bratton, o chefe da Polícia da cidade, refuta que os incidentes estejam sendo executados por criminosos imitadores. “Em muitas instâncias esses crimes não têm razão aparente e foram cometidos por pessoas com distúrbios emocionais, que não estavam tomando seus remédios”, disse Bratton nesta quarta (27). Esfaqueamentos em estações do metrô tiveram um aumento de 15% se comparado com o ano anterior. O mês ainda nem terminou e janeiro de 2016 teve 286 incidentes com facas ou navalhas, contra 249 em janeiro de 2015.

Na noite de ontem, terça (26), menos de 24 horas após do ataque da costureira, um homem foi atacado na plataforma de uma estação de metrô no Harlem, enquanto esperava pelo trem. Outros casos recentes incluem o de uma garota chinesa de 16 anos, estudante de intercâmbio, que teve dois cortes, ambos se estendendo da bochecha até o pescoço, enquanto fazia seu trajeto de apenas oito minutos de duração para a escola num bairro do Queens. O incidente aconteceu em dezembro. Levada para um hospital local, ela foi submetida a uma operação e sobreviveu, graças ao fato de a navalha usada no ataque por um homem mascarado, e que ainda não foi capturado, não ter atingido nenhuma das artérias principais.

Imagem liberada pela Polícia de NY mostra jovem estudante chinesa (escondida por borrões) minutos antes de ser atacada no Queens. (Foto: Divulgação)
Imagem liberada pela Polícia de NY mostra jovem estudante chinesa (escondida) minutos antes de ser atacada no Queens. (Foto: Divulgação)

Nas primeiras horas da manhã do dia 30 de dezembro, a jovem Amanda Morris, 24, caminhava pelo Chelsea, o bairro gay de Nova York e cheio de restaurantes e clubes noturnos, em direção a uma filial do supermercado Whole Foods, onde ela trabalha. Morris percebeu que um homem andava próximo a ela, em passos erráticos, e achou de que se tratava de um sem teto embriagado. Como a maioria dos nova-iorquinos em situação parecida, Morris ignorou o homem, procurando se afastar dele. Segundos depois, ele correu por trás dela e a atacou. “Achei que tinha sido esbofeteada”, disse a vítima. Ao buscar ajuda numa mercearia local, ela percebeu que estava com dois cortes superficiais próximos ao nariz e lábio inferior, que lhe renderam sete pontos no rosto.

Amanda Morris mostra ao jornal "New York Post" os dois cortes que precisaram de sete pontos. (Foto: Reprodução)
Amanda Morris mostra ao jornal “New York Post” os dois cortes que precisaram de sete pontos. (Foto: Reprodução)

Com a ajuda de câmeras do comércio local, a Polícia de Nova York conseguiu prender o agressor: Kari Bazemore, 41, que, dois dias antes daquele ataque, havia sido liberado da prisão após dar um soco em uma mulher, em outro incidente sem provocação. Desde 2000, Bazemore teve 32 passagens pela polícia.

Câmera de rua captou o momento em que Amanda foi atingida. (Foto: Polícia de NY)
Câmera de rua captou o momento em que Amanda foi atacada. (Foto: Polícia de NY)

Câmeras de rua também ajudaram na identificação e prisão dos agressores do trabalhador público Christopher-Smith e da costureira Rivera. No primeiro caso,  comparando as imagens com fotos de fichamentos da polícia, investigadores conseguiram identificar Francis Salud, 28, um jovem com problemas mentais, que havia se mudado recentemente para o bairro, exatamente a três quarteirões de distância do local onde ele promoveu o ataque. Salud estava em liberdade condicional após pagar fiança de US$ 30 mil, por outro ataque com faca, este ocorrido em outubro, durante uma disputa por cigarro na frente de um hospital de Nova York. Depois de cortar o rosto de Christopher-Smith, Salud chegou a anotar em sua agenda de bolso uma breve descrição de seu crime. Sem direito a pagar fiança, ele agora espera por julgamento. Se condenado, poderá pegar até 25 anos de prisão.

Salud, que tem problemas mentais, poderá passar 25 anos na cadeia. (Foto: Polícia de NY)
Salud, que tem problemas mentais, poderá passar 25 anos na cadeia. (Foto: Polícia de NY)

Já no caso da costureira, a Polícia de Nova York liberou, para as emissoras de TV, as imagens captadas por uma câmera do metrô (ver video abaixo), que mostravam o rapaz Damian Knowles, 21, fugindo da estação após o ataque. Embora o rosto do agressor não esteja visível, a avó da namorada de Knowles o reconheceu na TV por causa da calça de abrigo Adidas vermelha que ele usava. Ela imediatamente ligou para a polícia.

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