Sean Penn quer “ver a licença de jornalista” de seus detratores na mídia

Por Marcelo Bernardes

O programa”60 Minutes”, da rede americana “CBS”, exibiu na noite de domingo, 17, a ultra-propagandeada entrevista exclusiva que o jornalista Charlie Rose conduziu com o ator Sean Penn na Califórnia, na noite de quinta-feira, dia 15. Nela, o vencedor do Oscar admitiu que o propósito de sua polêmica entrevista com o chefão do tráfico de drogas mexicano Joaquín “El Chapo” Guzmán feita para a revista musical “Rolling Stone” “falhou” em seu intuito.

“Lamento que a discussão inteira sobre essa reportagem ignore o seu propósito, que era tentar contribuir para essa discussão sobre a política da Guerra às Drogas”, disse Penn. O ator rejeitou as alegações de que a entrevista, publicada on-line no sábado, dia 9, um dia após a recaptura de El Chapo tenha contribuído para a prisão do contraventor. Penn disse que não está com medo ou se sentindo ameaçado pelo cartel das drogas da região mexicana de Sinaloa, que era comandado por El Chapo, e que poderia agora retaliar.

De voz com entonação trêmula no começo da conversa, quando Charlie Rose quis saber “what were you thinking” (o que passava pela sua cabeça), Penn foi adquirindo mais confiança à medida que Rose amansou e optou pelo chamado estilo “softball” de entrevistar, o famoso “pega leve” com o entrevistado. Afinal de contas, o intuito da entrevista de Rose, esse sim, já havia acertado seu alvo.

Mas o que o chamou mais a atenção durante a conversa foi um trecho que a rede CBS deixou de lado na hora de promover maciçamente o encontro: Penn opinando sobre o jornalismo americano. “Vou ser o mais honesto que posso com você aqui”, disse o ator à Rose. “Às vezes minhas palavras (em meus textos) podem ser bastante floreadas, eu posso soar irritadiço, como muita gente pode, (mas) estou muito triste com o estado do jornalismo (executado) em nosso país”. Segundo o ator, “tem sido uma incrível hipocrisia e uma incrível lição sobre o quanto eles (os jornalistas) não sabem e o quanto desservido nós somos (de informações)”, disse Penn.

“É claro que tem gente que não gosta de mim, para começo de conversa, sem uma certa controvérsia. Mais que justo isso”, diz o ator. E fazendo aspas com o dedos ao citar jornalistas, Penn conclui: “‘Jornalistas’ que querem dizer que eu não sou jornalista, bem, desses eu quero ver a licença que diz que eles são jornalistas”.

Rose acusa Penn de cometer uma das piores heresias do jornalismo: mostrar o texto final para a fonte aprovar. O ator se defende, dizendo que essas eram as condições para a entrevista ser conduzida e que os leitores não “teriam nada a perder” caso o traficante não tivesse aprovado o texto, “pois o artigo jamais teria sido publicado”.

O apresentador também quis saber de Penn sobre o fato de a mídia criticá-lo pelo tamanho de seu ego, por ele ser um aventureiro e de se achar que é o novo Hunter S. Thompson do pedaço, com “uma qualidade empírica” em seu trabalho de reportagem. “Se eu aceito o fato de as pessoas sentirem dessa maneira a respeito de minha pessoa?”, rebate Penn. “Eu absolutamente aceito que as pessoas sintam-se assim”.

Rose então pergunta se “as pessoas estão certas” de pensarem assim. “Não, elas não estão certas”, encerra o ator.