Entre filmes políticos de Haskell Wexler estava documentário sobre a ditadura

Por Marcelo Bernardes

O diretor de fotografia norte-americano Haskell Wexler, que morreu neste domingo (27), aos 83 anos, na cidade de Santa Monica, Califórnia, era considerado um dos profissionais mais inventivos de sua área em Hollywood. Ele conquistou dois Oscars – pelas fotografias dos filmes “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, de Mike Nichols, feita em preto-e-branco, em 1966, e por “Esta Terra É Minha”, de 1976, uma cinebiografia sobre o cantor folk Woody Guthrie (um dos preferidos de Sean Penn e Johnny Depp), e o qual Wexler chegou a conhecer pessoalmente, quando os dois serviram a marinha durante a Segunda Guerra Mundial.

Wexler era tão popular em Hollywood que chegou a ganhar uma estrela na Calçada da Fama. Ele também trabalhou com cineastas de estilos tão díspares quanto Milos Forman, George Lucas, Elia Kazan, Norman Jewison e Hal Ashby, entre outros.

O fotógrafo também era extremamente politizado, “um defensor de causas progressivas”, como diz o obituário dele no jornal “New York Times” desta segunda (28), ou “um radical” como seu auto-denominava. Na última fase de sua carreira, passou a se dedicar mais aos documentários, chegando a dirigir vários, entre eles o elogiadíssimo “Dias de Fogo” (“Medium Cool”, no original em inglês), filmado durante a convenção do Partido Democrata americano em Chicago, em 1968; e “Who Needs Sleep” (2006), uma investigação sobre as horas extras feitas por diversos profissionais trabalhando em filmagens de produções de Hollywood.

Pôster do documentário, publicado na Folha, em novembro de 1970. (Foto: Reprodução)
Pôster do premiado documentário “Dias de Fogo”, de Wexler, publicado na Folha em novembro de 1970. (Foto: Reprodução)

Foi em 1971 que ele chegou ao Brasil para filmar com o documentarista Saul Landau (morto em 2013, aos 77 anos), o filme “Brasil: Um Relato de Tortura”. Wexler e Landau viajaram em seguida até o Chile para entrevistar alguns integrantes do Grupo dos 70, presos políticos brasileiros levados para o exílio naquele país em troca da liberdade do embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, sequestrado pela organização armada VPR, no final dos anos 70, no Rio de Janeiro. Entre os entrevistados do documentário estão o Frei Tito, o ex-presidente de UNE Jean Marx van der Weid, e Nancy Mangabeira Unger, irmã do ex-ministro Mangabeira Unger.

O Grupo dos 70, os presos políticos brasileiros exilados no Chile, e alguns entrevistados por Haskell Wexler e Saul Landau. (Foto: Reprodução)
O Grupo dos 70, os presos políticos brasileiros exilados no Chile, alguns entrevistados por Haskell Wexler e Saul Landau. (Foto: Reprodução)

O filme teve sua estreia mundial em setembro de 1971, em Nova York, num festival de novos cineastas americanos organizado pelo Museu Whitney. Coube ao escritor Norman Mailer, com seu filme “Maidstone”, abrir o evento. No Brasil, o filme ficou inédito até 2012, quando integrou a mostra “Brasil Anos 70”, do Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro.

Quem quiser conhecer o documentário, ele está disponível na íntegra no YouTube.