“Estamos sendo silenciados por nossos aparelhos”, diz autora

Por Milly Lacombe

Em dezembro de 2013, uma escola de ensino médio em Nova York chamou a psicóloga e socióloga Sherry Turkle para analisar um caso preocupante. A diretora da escola explicou que seus alunos não pareciam ser capazes de fazer amigos, apenas conhecidos. Havia ali, ela detectou, um padrão preocupante. “As conexões são superficiais,” explicou antes de emendar: “e não era assim antes”.

Turkle, que estuda as relações entre seres humanos e tecnologia desde a década de 70, é professora do MIT e estava trabalhando em um livro sobre a importância do diálogo, se juntou ao corpo docente para analisar mais a fundo a situação.

Não demorou a notar que, de fato, as crianças não estavam desenvolvendo empatia como deveriam para a idade. Um caso em especial chamou sua atenção: o de uma menina de 11 anos que impediu que uma outra aluna fosse a um evento da escola. A diretora chamou a menina para conversar e ela foi robótica na resposta. “Não tenho sentimentos sobre isso”, disse. Ela sequer percebeu que a outra garota tinha ficado chateada, não foi capaz de se colocar no lugar dela, explica Turkle.

O que desenvolve empatia, Turkle conta no recém-lançado “Reclaiming Conversation, o The Power of Talk in a Digital Age” (em tradução livre: “Recuperando a Conversação, o Poder da Palavra da Fala na Era Digital”) é a capacidade de dialogar com o outro. “Conversação gera empatia, e era isso o que estava faltando”.

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No refeitório, ela percebeu, as crianças ficam com seus celulares e quando compartilham alguma coisa entre si é um conteúdo do celular.

“Desde muito cedo vi que os computadores ofereciam a ilusão da companhia sem as exigências da amizade”, explica a pesquisadora que trabalha nessa área há 40 anos. “Passar tempo com pessoas ensina as crianças como é fazer parte de uma relação, e isso começa com a habilidade de manter um diálogo”.  Para ela, o celular é hoje um refúgio, um escape para a fundamental necessidade de se relacionar com o outro.

Turkle conta casos interessantes, como o da pesquisa pedia para pessoas ficarem sentadas sozinhas por 15 minutos, sem um livro ou o telefone. Elas foram perguntadas se topariam se auto-aplicar eletrochoques em caso de se sentirem muito entediadas, e todas disseram categoricamente: “De jeito nenhum. Não vou aplicar”. Depois de seis minutos muitos começaram a se aplicar os eletrochoques.

Ela diz que a capacidade de ficar sozinho sem fazer nada, em estado de solitude, é o que ajuda a nos preparar para se relacionar com o outro porque desenvolve auto-conhecimento e isso ajuda a criar empatia.

A autora diz que algumas coisas têm sido feita para que o cenário mude e conta que conhece CEOs que estão instruindo funcionários a resolver conflitos cara-a-cara.

A obra não é uma pregação contra a tecnologia, nem poderia ser, mas alerta para a necessidade de mudarmos a relação entre homem e máquina imediatamente. Para Turkle a urgência é a mesma que temos que ter em relação ao aquecimento global: a hora de mudar de atitude é agora, e nem um minuto depois disso.

O livro está disponível em versão eletrônica, mas ainda apenas em inglês.