Quentin Tarantino e Kevin Smith discutem apogeu das locadoras de VHS

Por Marcelo Bernardes

No verão de 1989, sob pressão da mãe, um ainda adolescente Kevin Smith decidiu procurar emprego. Na pizzaria Domino’s, o fizeram usar calça comprida. “Fico horrível usando calça”, diz Smith, que não apareceu para trabalhar no segundo dia. Ao descolar bico em um cemitério, a primeira tarefa dele foi cavar um cova. “Era muito jovem para aquilo”. E, numa padaria italiana, iniciou uma relação de ódio com pães-doces.

Foi quando Smith achou, via classificados, que a locadora de vídeo RST, em Nova Jerséi, precisava de atendentes. “O balcão era da altura do meu queixo. Aquilo foi a primeira coisa que me encantou. E pensei: ‘olha só essa zona, vivemos como crianças, rodeados de filmes. Nunca vamos envelhecer ou morrer. Este é o mais “Cocoon” dos empregos’”.

Não muito distante daquele verão, Smith viria a se transformar em cineasta, dirigindo comédias de sucesso (ou polêmicas) como “O Balconista”, “Procura-se Amy” e “Dogma”. Smith narra sua paixão pelos filmes lançados em VHS, e como o acervo de locadoras especializadas mudou sua vida, motivando-o a seguir carreira no cinema, no livro “I Lost It at the Video Store” (Eu me Perdi numa Locadora), que acabou de ser lançado nas livrarias americanas.

Livro faz "história oral" do  apogeu das locadoras, nos anos 80. (Foto: Reprodução)
Livro faz “história oral” do apogeu das locadoras, nos anos 80. (Foto: Reprodução)

Escrito pelo jornalista Tom Roston, o livro faz uma “história oral” da cultura das locadoras de vídeo, que tiveram seu apogeu na década de 80 até desaparecerem, quase que completamente a partir de 2010, ano em que a maior delas, a Blockbuster, decretou falência. O livro traz depoimentos de distribuidores de filmes e diretores como Darren Aronofsky, Luc Besson, Tom DiCillo, James Franco, Doug Liman, David O. Russell, John Sayles, Morgan Spurlock e Quentin Tarantino, entre outros.

Por cinco anos, na cidade de Manhattan Beach, na Califórnia, Quentin Tarantino trabalhou na locadora Video Archives. Em 1985, querendo se livrar de viver de comissões como vendedor, Tarantino recebeu uma proposta que mudaria a vida dele. “Achei que era o lugar mais legal que já tinha visto”. Na locadora, Tarantino descobriu incontáveis filmes obscuros de cineastas italianos, dos gêneros western e terror e títulos asiáticos. Também virou expert do underground americano, da nouvelle vague francesa e dos filmes de blaxpoitation. As recomendações do cineasta para a clientela eram tão acertadas que, quando ele e os colegas iam ao cinema local, eram reconhecidos e saudados pelos cinéfilos. “De uma maneira estranha, a Video Archives foi uma espécie de cartilha sobre como seria ser uma pessoa famosa”, explica Tarantino no livro.

Além de Smith e Tarantino, dois outros cineastas ouvidos pelo autor Roston trabalharam em locadoras. Joe Swanberg, diretor da comédia “Hannah Sobre as Escadas”, estrelada pela atriz Greta Gerwig, explica que quando foi trabalhar numa locadora de uma pequena cidade do estado de Illinois descobriu o longa que viria desperta-lhe o desejo de dirigir: “Arizona Nunca Mais”, dos irmão Ethan e Joel Coen. “Foi um momento iluminado para mim. Nem todos os filmes eram feitos por Steven Spielberg ou Tom Hanks”.

Na locadora New Video, no bairro do Village, em Nova York, a cineasta Nicole Holofcener, que viria a dirigir filmes independentes como “Walking and Talking” e “Encontro de Irmãs (Lovely and Amazing no original)”, não só teve acesso a filmes de Roman Polanski, cineasta que ela desconhecia, como fez desafetos com companheiros de trabalho. Uma das balconistas com quem Nicole não se dava bem, viria a se transformar numa importante editora de som, com cargo no Skywalker Ranch, de George Lucas. “Ela acabou fazendo um excelente trabalho nos meus filmes mais tarde, fazendo um preço em conta”, explica Nicole.

O livro contem revelações de como David O. Russell, de “O Vencedor” e “A Trapaça”, se tornou um cineasta autodidata, memorizando uma seqüência inteira de 30 minutos de “Chinatown”, de Polanski. “Vivia extendendo o período de locação da fita do filme até que o gerente veio dizer: ‘ei, tem outras pessoas querendo alugar o filme também’”. Já Darren Aronofsky, de “Cisne Negro”, jamais tinha sido exposto aos filmes underground americanos ou ouvido falar de John Waters, até que um balconista de locadora sugeriu-lhe que alugasse “Pink Flamingos”.

Ao dirigir “Le Dernier Combat”, em 1982, o cineasta francês Luc Besson leu uma crítica no jornal no qual seu filme era comparado com obra do russo Andrei Tarkovsky. “Foi numa locadora de Paris, perto da minha casa, que descobri “Andrei Rublev”. A comparação de meu filme com aquele clássico de Tarkovsky ainda não fazia nenhum sentido para mim, mas, a partir daquele dia, nunca mais deixei de frequentar aquela locadora”.

Nem todos as locadoras especializadas em filmes de arte tinham funcionários amistosos como Tarantino e Smith. Que o diga Morgan Spurlock, diretor do documentário “Super Size Me”, que recebeu o famoso gélido tratamento da Kim’s Video, lendária locadora do bairro do East Village, e cuja última loja fechou suas portas no ano passado. “Ninguém falava ‘bem-vindo’ ou um ‘oi’. Você não só se tornava invisível como também era considerado um cuzão por ter entrado lá. E quando você perguntava ‘onde está a seção de lançamentos’, eles, de alguma forma, tiravam sarro de você”.

Novas tecnologias e novas formas de assistir filmes também são discutidas no livro. Spurlock agora costuma acessar os filmes que quer assistir via o serviço Netflix. Já Swanberg é fã do site Fandor, espécie de Netflix mais artístico e “indie”. “Lá você não vai achar uma comédia de Adam Sandler, mas todos os filmes de Werner Herzog estão disponíveis”. Aronofsky, que é membro recente do Netflix, acha que a experiência de vasculhar o acervo da plataforma de vídeo on-line é similar ao das locadoras. Foi no Netflix que o cineasta encontrou um filme estrelado pelo ator mexicano Gael García Bernal, título que ele considera “fantástico”: “Conflito das Águas”, rodado na Bolívia em 2010.

Tarantino já e mais crítico (e metafórico) em relação ao embate entre a tecnologia de baixar filmes em casa contra a experiência de ir ao cinema. “O progresso é não sair de casa? Isso é progresso?”, pergunta. “Adoro comer em casa, mas gosto de fazer refeições em restaurantes também, muito embora tenha uma cozinha em casa”. Sobre o triste fim das locadoras, Kevin Smith tem uma “teoria” sobre elas. “Quando é que o mundo começou a ficar tão gordo? Provavelmente quando paramos de andar até a locadora de vídeos”.