Documentário mostra visita de Juscelino Kubitschek a Disneylândia

Por Marcelo Bernardes

A segunda parte do documentário “Walt Disney”, produzido pela rede educativa americana PBS, e que foi ao ar ontem à noite, mostrou imagens de arquivo da visita do presidente Juscelino Kubitschek a sede da Disneylândia, em Anaheim, Califórnia, no início da década de 60.

De boné de maquinista com a inscrição “Bem-vindo a Disneylândia” e acenando com uma das mãos, Juscelino aparece na cabine de um trem, com o verdadeiro maquinista a seu lado.

Em 1961, Juscelino Kubistchek e a família dele visitaram a sede da Disneylândia, na Califórnia. (Foto: Reprodução)
Em 1961, Juscelino Kubistchek e a família dele visitaram a sede da Disneylândia, na Califórnia. (Foto: Reprodução)

O segmento do documentário mostrava como vários estadistas visitaram a Disneylândia, a convite de Walt Disney, em seus primeiros anos de funcionamento. Além das imagens de JK, são mostradas as das visitas do primeiro-ministro da Índia , Jawaharlal Nehru, do rei Mahendra do Nepal, do xá do Irã e de líderes africanos. O documentário cita que o primeiro-ministro da ex-União Soviética Nikita Khrushchev “fez um escândalo” quando o Serviço Secreto americano, alegando razões de segurança, vetou a visita dele.

O documentário revela que Walt Disney começou a esboçar a ideia da Disneylândia a partir da obsessão, desenvolvida pelo empresário no final dos anos 40, com as locomotivas. Enquanto sua companhia trabalhava na produção do desenho animado “Cinderela”, Disney começou a se dedicar cada vez mais na criação de mini-vagões que podiam carregar uma pessoa.

Os primeiros protótipos foram construídos num dos galpões do estúdio Disney, em Anaheim, e mais tarde, uma mini-locomotiva inteira e uma mini-ferrovia (com direito a um mini-túnel) foram construídos no amplo quintal da casa do empresário. Ao visitar a casa de Disney, o pintor surrealista Salvador Dalí aconselhou o empreendedor a expandir aquela obsessão. Nos primeiros desenhos do projeto da Disneylândia, uma ferrovia circunda toda a extensão do parque temático.

O pintor Salvador Dalí andou na mini-locomotiva que Disney montou no quintal de casa, na Califórnia. (Foto: Reprodução)
O pintor Salvador Dalí andou na mini-locomotiva que Disney montou no quintal de casa, na Califórnia. (Foto: Reprodução)

O sucesso da Disneylândia, que atraiu cerca de um milhão de visitantes em suas primeiras dez semanas de funcionamento, ajudou Disney a colocar um ponto final em 40 anos de uma conturbada gangorra financeira que marcou seus empreendimentos. Pela primeira vez,  Disney se viu livre da interferência dos bancos que lhe fizeram vários empréstimos.

Com dinheiro jorrando, Disney investiu ainda mais na produção de filmes e programas de TV e também na compra de terrenos em Orlando, na Flórida, onde ele pretendia erguer uma mega-cidade do futuro. Na época, Disney pode aprovar um dos filmes mais ambiciosos de sua companhia e também projeto que ele acalentava fazer por mais de 20 anos: “Mary Poppins”. Estrelado por Julie Andrews, o filme conquistou 13 indicações para o Oscar, incluindo a primeira indicação individual para Disney na categoria de melhor filme, do qual ele era produtor. Até hoje, Disney é o campeão de Oscars. Ele ganhou 22 estatuetas. Mas nunca havia sido indicado na categoria de melhor filme. “Mary Poppins” perderia a estatueta para “My Fair Lady”.

A segunda parte de “Walt Disney” mostra também o quanto implacável e rancoroso Disney era com quem lhe cruzasse o caminho. Em 1941, ele se sentiu traído pelos funcionários de sua companhia, principalmente os animadores, que partiram para um greve que paralisou boa parte da produção do estúdio. A greve durou vários meses, Disney quase saiu no tapa com o líder do protesto e se recusou a atender as reinvidicações dos grevistas. Quando Walt Disney embarcou para uma viagem pela América do Sul, incluindo uma passagem pelo Brasil, Roy, o irmão e braço direito do empresário, conseguiu conter a greve, acatando a maioria das reivindicações feitas. Walt Disney culpava os “comunistas” de Hollywood pela paralisação.

 Em 1947, seis anos depois da greve, Disney demonstrou que jamais se esquecera dos líderes sindicais, a maioria saídos de seu staff de animadores. Em depoimento ao Comitê de Investigação de Atividades Antiamericanas do Senado dos Estados Unidos, em Washington, Disney delatou o nome de vários de seus ex-funcionários, chamando-os, sem provas, de comunistas. A delação de Disney fez com que o nome desses profissionais fosse inscrito na famosa “lista negra” de Hollywood. Nenhum estúdio americano podia contratar profissionais cujos nomes figuravam nesta lista.