A nova bolha americana

Por baixomanhattan

Maio e junho são meses de formatura em escolas e universidades americanas e período para que um assunto quase clandestino seja jogado à luz: o da dívida estudantil.

O economista e professor Richard Wolff, em entrevista a Bill Moyers, chamou a atenção para o nível da dívida estudantil nos Estados Unidos, explicando que, historicamente, o país nunca alcançou marcas como as de hoje (calcula-se que ela esteja acima dos 1,2 trilhões de dólares, maior do que a de cartões de crédito e representando 6% da dívida interna). “Não apena estamos obrigando estudantes a contraírem dívidas nunca antes contraídas, mas oferecemos a eles a pior perspectiva de emprego possível”, disse Wolff. “Você pega emprestado mais do que pode pagar e depois consegue um emprego que jamais deixará que você quite a dívida”.

Wolff segue: “Estamos, enquanto nação, dando um tiro no pé. É uma demonstração da disfuncionalidade do sistema”.

Segundo o “The Wall Street Journal” a turma de universitários que se formou em 2014 foi a mais endividada da história, com uma média de US$ 33 mil, ou R$ 100 mil, o que significa dizer que o recém-formado entra no mercado de trabalho devendo R$ 100 mil. Números para os formados em 2015 ainda não foram divulgados, mas devem superar os de 2014.

De acordo com o instituto de pesquisas Pew, desde 2008, e portanto desde depois da crise do mercado financeiro, a dívida estudantil cresceu 84%. Em 1994 menos de 50% dos estudantes deixava a universidade devendo para o mercado, hoje mais de 70% saem da sala de aula endividados.

Wolff lembra que a legislação americana permite que quase todos declarem falência, inclusive mega corporações e bancos, mas nega esse direito a estudantes.

O linguista e ativista Noam Chomsky vai mais longe e considera as mensalidades cada vez mais altas das universidades americanas uma forma de doutrinação.

O recém-formado, tendo diante de si dívidas de US$ 30 mil (ou R$ 100 mil) é obrigado a aceitar os empregos que melhor pagam, abrindo mão de vocações, talentos e sonhos, especialmente daqueles que levariam a uma carreira voltada para o social, e entrando sem pensar muito em uma máquina desenhada para alimentar as profissões que sustentam o sistema como ele se apresenta hoje: um que é incapaz de resolver a questão da desigualdade social e que só faz aumentá-la.

Da próxima vez que você assistir um desses filmes em que universitários jogam para o alto, felizes da vida, seus chapéus de formatura lembre-se de que, muito provavelmente, se trata de alguém que ainda não tem trabalho mas já acumula uma enorme dívida.