Em Nova York, uma livraria só para anarquistas

Por Milly Lacombe

Se você escuta a palavra anarquismo e, como eu, imagina um mascarado arremessando pedras em vidro de concessionária é boa hora para abrir mão da imagem-clichê.

(crédito: divulgação)
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Anarquismo é um movimento que existe há muitas e muitas décadas e que basicamente pede que identifiquemos estruturas hierárquicas de poder e então investiguemos sua legitimidade. Não sendo legítima – como poucas são – precisa ser desmontada.

Em tese, todo anarquista é também um socialista, mas nem todo o socialista é um anarquista porque o anarquista é contrario à ideia de um estado forte e aparelhado; o anarquista acredita que estado e empresas devem ser geridas, organizadas, constituídas e apropriadas pelo trabalhador.

É de fato uma ideologia de paz, fraternidade e igualdade, ainda que de forma geral acredite que apenas uma revolução consiga conduzir ao desejado fim. Para o anarquista, liberdade não é conceito abstrado, mas a única forma de o ser humano desenvolver plenamente toda a sua capacidade e talentos e depois usá-los para o bem social e da comunidade.

Existe na Baixa Nova York, na rua Allen, uma livraria dedicada a anarquistas, na qual é possível encontrar todo tipo de literatura que analisa o feminismo, a homossexualidade, a transexualidade, o patriarcado, a supremacia branca, o racismo e todas as demais formas de opressão e respectivas batalhas para eliminá-las.

A Bluestockings é administrada por quem trabalha nela e tem divisão igualitária do lucro. Ela existe desde 1999 e segue o modelo anarquista de negócios, que é o de fazer com que a empresa seja cooperativa e comunitária.

O espaço é também um centro de ativismo e local de palestras, aulas e encontros semanais, como o curso de tricô para lésbicas (te los juro), a noite do “microfone aberto” para trans (que podem cantar, discursar, executar uma rotina de stand-up etc) e o clube feminista que tem encontros mensais.

(crédito: divulgação)
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Um café que fica dentro da Bluestockings tem bebidas, salgados e doces e você pode comer enquanto folheia algum livro sem que seja obrigado a adquiri-lo – o pessoal que trabalha ali encoraja que você faça isso -, o que é conveniente porque nas livrarias grandes, embora você também possa folhar o que quiser, o café está propositalmente localizado longe dos livros e não é possível comer, beber e ler.

“Através da arte, da comida, da palavra, do ativismo, do espírito de comunidade queremos criar um ambiente que engrandeça e receba bem a todas as pessoas”, está escrito na missão da Bluestockings. O anarquismo não é ideologia para aqueles que querem apenas entender o mundo, mas para aqueles que querem transformá-lo.

Alguns anarquistas famosos: John Cage, Emma Goldman, Emiliano Zapata, Henry David Thoreau e, meu predileto, Noam Chomsky.