Abertura do Whitney: Michelle Obama elogia artista cubana de 99 anos

Por Milly Lacombe

“Uma visita, uma performance, um toque e quem sabe o que dá vida à imaginação de uma criança? Talvez possamos inspirar uma criança a escapar das circunstâncias de sua vida e buscar uma coisa melhor. Talvez possamos descobrir a próxima Carmen Herrera”.

Foram essas as palavras da primeira-dama Michelle Obama depois de experimentar – e inaugurar – o novíssimo museu Whitney, em Nova York, que abre suas portas ao público nessa sexta-feira, 1 de maio. Os ingressos para o primeiro fim de semana de funcionamento foram vendidos com boa antecedência e estão esgotados.

O diretor do Whitney Adam Weinberg, a primeira dama Michelle Obama, e o prefeito de Nova York Bill de Blasio na inauguração do museu. (Foto: Filip Wolak)
O diretor do Whitney Adam Weinberg, a primeira dama Michelle Obama, e o prefeito de Nova York Bill de Blasio na inauguração do museu. (Foto: Filip Wolak)

O curioso da declaração de Obama é que a citada Carmen Herrera, artista cubana que emigrou para os Estados Unidos na década de 50, foi descoberta aos 89 anos, e nem um minuto antes disso.

Pintora que, como a brasileira Lygia Clark, usa formas geométricas em sua obra, Herrera foi durante anos desencorajada a seguir carreira. Quem a desencorajava eram galeristas e curadores nova-iorquinos que diziam ser impossível vender quadros de mulheres, especialmente se elas fossem latinas.

O quadro Blanco y Verde, de Carmen Herrera, em exposição no Whitney. (Foto: Divulgação)
O quadro Blanco y Verde, de Carmen Herrera, em exposição no Whitney. (Foto: Divulgação)

Herrera voltava para casa todos os dias depois de tentar vender um quadro e reclamava da falta de sorte para o marido, até que um dia ele disse: “Ou pinta ou não pinta, mas para de reclamar”. E foi o que ela fez.

Com 30 anos, abandonou o sonho de vender quadros, mas não de produzi-los. “É uma compulsão, não posso deixar de fazer”, diz ela sobre nunca ter deixado de pintar. Guiada pela obsessão, foi acumulando sua arte até que, em 1989, um curador viu a obra e enlouqueceu. Ela tinha 89 anos quando o primeiro de seus quadros foi vendido.

Hoje, aos 99, Herrera ainda pinta todos os dias em seu apartamento nova-iorquino. O marido, com quem foi casada por mais de 50 anos, morreu pouco tempo antes de ela vender a primeira obra e não pôde testemunhar um quadro de Herrera ser vendido por quase meio milhão de dólares.

Entrada do Whitney Museu (com ex-prédio de abatedouro/açougue ao lado e o rio Hudson ao fundo). (Foto: Nic Lehoux)
Entrada do Whitney Museu (com ex-prédio de abatedouro/açougue ao lado e o rio Hudson ao fundo). (Foto: Nic Lehoux)

Então, talvez a sra. Obama tenha falado sobre talento em seu discurso pós-Whitney, e a história de Herrera é sem dúvida uma história de talento, mas acima de tudo é uma história de paixão.