Como se deu a morte do sonho americano

Por Milly Lacombe

Noam Chomsky é o maior intelectual vivo, e também o menos enaltecido pela grande mídia.

Há inúmeros motivos para isso, entre eles o fato de Chomsky responsabilizar a grande mídia pelo atual estado das coisas.

Professor de neurolinguística do MIT – Massachusetts Institute of Technology –  há seis décadas, tendo escrito mais de 100 livros e saudado como estrela de rock por uma parcela cada vez maior da população do planeta, especialmente por jovens, Chomsky nunca foi tão importante para aqueles que querem entender o mundo. “Ele nos dá visão de raio x”, disse Peter Hutchison, um dos três cineastas que acaba de lançar “Requiem for the American Dream”, obra que abre portas e janelas para a mente de Chomsky. “É como se, depois de escutá-lo e lê-lo, fôssemos capazes de enxergar um outro mundo”.

Em Nova York, e falando para uma plateia de entusiastas depois da exibição de “Requiem” durante o festival de Tribeca (tratava-se de uma sessão extra, a pedido da organização), Hutchison, Kelly Nycks e Jared P. Scott disseram por que resolveram is atrás de Chomsky para analisar a atual situação do mundo. “Há décadas ele alerta sobre a crescente concentração de poder e dinheiro nas mãos de uma pequena parcela”, disse Nycks. E se antes ele era apenas um maluco que dizia coisas que pouca gente conseguia perceber, hoje ele é genial porque antecipou o cenário baseado apenas em sua própria lógica e na observação que faz do mundo e do ser humano.

“Como ele teve enorme influência em nossa formação, e na nossa visão da vida e da sociedade, resolvemos recorrer a ele para explicar o que está acontecendo com os Estados Unidos e com o planeta”.

São, assim, 80 minutos de um intensivo em Chomsky.

Para que a experiência não fosse tediosa ou muito forte, os cineastas, todos com experiência em documentários sociais, mas sem formação técnica, decidiram dividir a análise em 10 fundamentos, e embora a câmera permaneça fechada no rosto de Chomsky, há intervenções gráficas, especialmente quando ele cita outros pensadores – coisa que ele faz com regularidade.

Mas é quando revela seus pensamentos originais que Chomsky é mais poderoso. Sobre ser movido por um certo anti-americanismo, crítica frequente, ele diz. “O conceito é totalitário em si mesmo “. E explica que uma sociedade democrática não tem lugar para coisas assim, e apenas estados totalitários dão espaço para esse tipo de crítica. “Alguém fala em anti-italianismo? Não. Mas na União Soviética falava-se muito anti-stalinismo”.

Encontrar uma linha narrativa foi o grande desafio dos três cineastas novaiorquinos. “O professor Chomsky elevou essa barra a novas alturas”, disse Scott. “Ele tem conhecimento enciclopédico em variadas áreas, da Guerra Civil à luta pelos direiros humanos, passando por debates sobre igualdade na Grécia antiga e por seu trabalho em neurolingística, e usa todos esses recursos para explicar a situação sócio-político-econômica de hoje. Tínhamos um material enorme colhido ao longo de quatro anos de entrevistas, durante as quais tomamos muitas xícaras de chá com ele, muitas mesmo, e condensar isso em 75 minutos foi um desafio tremendo, e altamente compensador”.

Dois outros documentários foram feitos sobre Noam Chomsky, ambos em 1992 (“Manufacturing Consent” e “Deterring Democracy”, ambos disponíveis no Youtube), mas nenhum com a qualidade de “Requiem”. Aos 86 anos, casado com uma brasileira que conheceu alguns anos depois da morte da mulher com quem viveu por quase cinco décadas, Chomsky mantém a lucidez e o espírito ativista da década de 60, quando foi um dos primeiros intelectuais a se opor publicamente à Guerra do Vietnã, chegando a ser preso mais de uma vez.

Declaradamente anarquista – ou anarco-sindicalista, como ele prefere – escutar Chomsky falando em “Requiem” é como ser capaz de, finalmente, ouvir uma onda sonora que até então não era perceptível. Uma experiência ao mesmo tempo assustadora e compensadora. É ter a chance de sair de nosso confinamento intelectual e olhar a sociedade ao redor com lentes amplas. E, como queriam os cineastas, entender o que nos levou a chegar à desigualdade de hoje.

De forma pragmática é isso o que o filme faz. Mas o resultado que talvez não fosse esperado é a mensagem otimista do final, uma que fala em solidariedade e amor e comunidade. Uma tríade que pode ainda nos salvar.

A má notícia é que o documentário ainda não tem data para entrar em cartaz.