Em NY, uma fila que certas celebridades não se importam em pegar

Por Milly Lacombe

Eu estava em Nova York há menos de duas semanas quando, finalmente com o apartamento alugado, saí para fazer um supermercado. Como já tinha morado em Los Angeles, sabia que a melhor opção era ir ao Trader Joe’s, uma cadeia no estilo do Whole Foods mas mais “raiz”, digamos. Ou, de forma mais clara, um Whole Foods para quem, como eu, não ganha muito.

Quando cheguei perto da porta, vi uma fila que ia quase à esquina. Perguntei do que se tratava, e uma senhora que lia um livro enquanto esperava disse conformada: “É assim todo dia”.

Acabei indo a um outro supermercado, desses que não vendem coisas tão naturais ou orgânicas.

A fila na porta do Trader Joe's da rua 14 com Avenida 3 (crédito: divulgação)
A fila na porta do Trader Joe’s da rua 14 com Avenida 3
(crédito: divulgação)

Mas não estava disposta a desistir do Trader Joe’s porque sabia que lá dentro tudo o que eu acabaria comprando seria natural e orgânico, e não seria geneticamente modificado – uma das regras da casa. Então, na semana seguinte voltei e me plantei na fila.

Cresci escutando meu pai maldizer filas, e jurar que jamais esperaria para comer em restaurante, então até pouco tempo via filas como coisas aquém de minha majestade. Mas morar fora decreta a morte de algumas frescuras, nos torna mais humildes e hoje me relaciono bem com filas, especialmente com aquelas que me levarão a consumir melhor e por menos — precisamente o caso do Trader Joe’s.

E quem sou eu para mimimi se na fila do Trader Joe’s ficam celebridades como Miley Cyrus, Ashley Greene, Hillary Duff, Jessica Alba, Sarah Michelle Gellar – aparentemente uma empresa bastante popular com a “Hollywood adolescente”.

Foto tirada antes de a loja abrir porque o supermercado nunca fica vazio assim (crédito: divulgação)
Foto tirada antes de a loja abrir porque o supermercado nunca fica vazio assim
(crédito: divulgação)

O primeiro Trader Joe’s foi aberto em Pasadena, na Califórnia, em 1967, e desde então a cadeia não parou de crescer (hoje são 418 lojas em território americano). No universo dos negócios, o Trader Joe’s é considerado um dos melhores lugares para se trabalhar, ao lado de redes de varejo que vendem coisas por preços baixos, como o hipermercado Costco e da rede de lojas de conveniência QuickTrip.

Um caixa, por exemplo, chega a ganhar o dobro do que um caixa em outros estabelecimentos (o salário anual da categoria é de U$20 mil, ou cerca de R$ 60mil e um caixa nessas três empresas ganha em torno de U$ 40mil, ou R$ 120 mil, segundo reportagem da “The Atlantic”) .

Trader Joe’s, Costco e QuickTrip são citadas sempre que a intenção é mostrar que não é preciso pagar mal seus funcionários para crescer e lucrar, e também sempre que é preciso provar que é possível ser rentável e ao mesmo tempo tratar o funcionário como a estrela do negócio.

Pequenas regras também conquistam o cliente, como o direito a provar qualquer coisa vendida ali. Se você chamar um funcionário ele abre o pacote e você prova. Outra é a política de retorno de mercadoria. O Trader Joe’s aceita tudo de volta, sem fazer nenhuma pergunta ou pedir nota. E ao contrário de centenas de empresas que trabalham com comida e que preferem jogar no lixo o que sobra, o Trader Joe’s doa tudo que não foi vendido.

Um dia normal no Trader Joe's (crédito: divulgação)
Um dia normal no Trader Joe’s
(crédito: divulgação)

Não há alto-falantes pela loja, que sempre é embalada por rock de excelente qualidade, e quando um funcionário precisa chamar outro toca-se um sino. Um toque significa que é preciso abrir um novo caixa. Dois toques significa que tem um cliente com alguma dúvida e o funcionário precisa de ajuda. Três toques é para chamar o gerente.

Os funcionários se vestem com camisas coloridas dessas havaianas porque, explicam os executivos, além de ser divertido se vestir assim quem trabalha no Trader Joe’s é uma espécie de navegante que cruza oceanos em busca dos melhores produtos, e dos menores preços. Um exagero que soa simpático.

Melhor ainda, pelo menos para mim, é que em Nova York o Trader Joe’s tem uma loja que vende só vinhos, e nela é possível comprar o vinho da marca Trader Joe’s por U$2,99 (cerca de R$9), que é bastante decente. Mas há outros, do mundo inteiro, e os preços chegam a ser às vezes a metade do que em outros lugares. Um vinho italiano ou português de boa qualidade pode custar U$6, ou menos de R$20. Coisas assim me fazem encarar cantarolando as filas quase sempre enormes do Trader Joe’s.