Uma estrela improvável ganha seu próprio talk show

Por Milly Lacombe

Neil de Grasse Tyson tinha 17 anos e ainda não sabia o que iria fazer da vida quando a escola em que estudava, no Bronx, em Nova York, enviou uma carta a Carl Sagan, na época já um famoso astrofísico e comunicador, perguntando se Sagan poderia conversar com Tyson porque o garoto parecia ter jeito para o campo em que Sagan atuava. Foi por causa dessa carta, que Sagan respondeu imediatamente convidando o adolescente a visitá-lo em Cornell, NY, que num sábado de neve forte em 1975 Tyson e Sagan se encontraram. Passaram a tarde juntos, Sagan mostrou ao menino seu laboratório, falou sobre o que exatamente fazia e, ao se despedirem, Sagan o levou até a estação de ônibus e disse que tinha certeza que nascia ali um astrofísico.

Neil deGrasse Tyson em material promocional para "Cosmos" (crédito: Patrick Eccelsine/FOX)
Neil deGrasse Tyson em material promocional para “Cosmos”
(crédito: Patrick Eccelsine/FOX)

Quase quarenta anos depois, Tyson – agora um renomado astrofísico – seria convidado para tomar o lugar de Sagan na famosa série de TV que ele havia criado em 1980: “Cosmos” (regravada e exibida pela Fox nos Estados Unidos em 2014), e, no começo desse ano, convidado a ter seu próprio Talk Show, que estreia em abril.

Aos 56 anos, astrofísico, diretor do planetário Hayden, no Museu de História Natural em Nova York e um dos maiores responsáveis pelo polêmico rebaixamento de Plutão, Tyson tem, assim como seu ídolo, um enorme talento como comunicador. Por isso, ao apresentar o remake de “Cosmos” no ano passado, adquiriu imediatamente o status de estrela e de popstar: convites para palestras não pararam nunca mais de chegar, ganhou um programa de rádio, passou semanas indo a todos os talk shows americanos e começou a dar autógrafos nas ruas – para muitos adolescentes Tyson é agora o que Sagan foi para ele.

Em janeiro, o “National Geographic Channel” anunciou que dará a Tyson seu próprio programa, “Star Talk”, que estreará em abril e será gravado, diante de plateia, no planetário Hayden.

“O que me encanta na ciência”, disse Tyson em entrevista a Charlie Rose durante o programa “60 Minutes” na semana passada, “é que ela é verdadeira mesmo se você não acreditar nela”.

Com 2,5 milhões de seguidores no Twitter, Tyson é sempre retuitado aos milhares quando diz coisas como: “Não haveria guerras se todos tivessem a perspectiva cósmica porque entenderíamos que estamos juntos nessa”. E “Somos feitos de poeira estrelar, o universo está em todos nós”

Em palestras ele gosta de contar como em 1969 a Apollo 8 mudou o consciente coletivo ao fazer pela primeira vez na história uma foto da Terra. “Fomos explorar a lua e descobrimos a Terra”, costuma dizer.

O destino de Tyson foi traçado há cinco décadas, quando seus pais o levaram pela primeira vez ao Hayden; ele tinha oito anos. “Eu olhei para cima e tudo mudou”, disse a Rose antes de explicar que, por ser negro e forte, teve que lutar muito contra a tendência que as pessoas tinham para sugerir que ele virasse atleta e não astrofísico. “Tive que superar a baixa expectative que faziam de mim”, disse no “60 Minutes”.

Outra história que Tyson gosta de contar é uma de minhas favoritas porque a conheci vendo “Cosmos” na década de 80 ao lado de meu pai.

Trata-se do texto que Sagan fez sobre a primeira vez que a Voyager, enviada pela NASA para explorar o cosmos, virou, a pedido de Sagan, suas lentes para a Terra de uma distância de 6,4 bilhões de quilômetros nos colocando na mais estonteante perspectiva de todas: um minúsculo ponto pálido perdido no meio de outros milhões de pontos na vastidão do universo.

“The Pale Blue Dot”, ou “o Pálido Ponto Azul” foi um depoimento escrito por Sagan em 1990 ao ver a imagem pela primeira vez, e é das declarações mais comoventes e edificantes já feitas por um ser humano – e uma história que, para Tyson, agora uma estrela tão brilhante quando Carl Sagan, não pode parar de ser contada jamais.

É assim.

“O Pequeno Ponto Pálido”:

“Olhem de novo esse ponto. É aqui, é a nossa casa, somos nós. Nele, todos a quem ama, todos a quem conhece, qualquer um sobre quem você ouviu falar, cada ser humano que já existiu, viveram as suas vidas. O conjunto da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões, ideologias e doutrinas econômicas confiantes, cada caçador e coletor, cada herói e covarde, cada criador e destruidor da civilização, cada rei e camponês, cada jovem casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada professor de ética, cada político corrupto, cada “superestrela”, cada “líder supremo”, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu ali – em um grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pense nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, pudessem ser senhores momentâneos de uma fração de um ponto. Pense nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores de um canto deste pixel aos praticamente indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes seus desentendimentos, quão ávidos de matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas posturas, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são desafiadas por este pontinho de luz pálida. O nosso planeta é um grão solitário na imensa escuridão cósmica que nos cerca. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de outro lugar para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga vida. Não há outro lugar, pelo menos no futuro próximo, para onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, sim. Assentar-se, ainda não. Gostemos ou não, a Terra é onde temos de ficar por enquanto.

Já foi dito que astronomia é uma experiência de humildade e criadora de caráter. Não há, talvez, melhor demonstração da tola presunção humana do que esta imagem distante do nosso minúsculo mundo. Para mim, destaca a nossa responsabilidade de sermos mais amáveis uns com os outros, e para preservarmos e protegermos o “pálido ponto azul”, o único lar que conhecemos até hoje”.

O pálido ponto azul registrado pela Voyager durante missão interestelar em 1990
O pálido ponto azul registrado pela Voyager durante missão interestelar em 1990