Fotógrafo Leonardo Finotti ganha destaque em mostra do MoMA

Por Marcelo Bernardes

Já na abertura do catálogo de 300 páginas, que serve de material de apoio à exposição “Latin America in Construction: Architecture 1955-1980” (América Latina em Construção: Arquitetura 1955-1980), uma surpresa. Em vez de fotos de arquivo de Oscar Niemeyer, Lina Bo Bardi, Carlos Raúl Villanueva, Juan O’Gorman e Amancio Williams, alguns do arquitetos retratados na maior mostra do MoMA dedicada ao tema, quatro novas imagens de edifícios da região, incluindo o Congresso Nacional, ilustram o prefácio escrito por Glenn Lowry, atual diretor do museu em Nova York.

 

O fotógrafo mineiro Leonardo Finotti contribui com vários imagens novas da arquitetura latino-americana na exposição do MoMA, incluindo esta da Praça dos Três Poderes, em Brasília.
Praça dos Três Poderes, em Brasília, abre o catálogo especial da exposição do MoMA. (Foto: Leonardo Finotti)

 

Essas imagens são do portfólio do fotógrafo brasileiro Leonardo Finotti, que foi convidado pelo MoMA para ser uma espécie de cronista visual do desenvolvimento e evolução do modernismo arquitetônico da América Latina. Ao todo, 12 imagens de Finotti, que trabalhou no projeto por sete anos,  fazem parte da exposição, inaugurada ontem e fica em cartaz até 19 de julho.

 

Quatro delas são de projetos arquitetônicos de Brasília. Elas estão instaladas numa sala especial sobre a construção da Capital Federal. Ao lado de desenhos originais de Niemeyer e Joaquim Cardozo e maquetes de Lúcio Costa e Niemeyer, as fotos de Finotti fazem uma harmoniosa parceria entre visão e êxito. “Apesar de os curadores levarem em conta principalmente os originais e o espaço que cada projeto ocupava, senti um respeito enorme de todos eles em relação ao meu trabalho, o que mudou totalmente sua forma de apresentação”, disse Finotti, que veio à abertura da exposição, ao Baixo Manhattan.

 

Sala do MoMA dedicada à construção de Brasília, com quatro imagens de Finotti. (Foto: Marcelo Bernardes)
Sala do MoMA dedicada à construção de Brasília, com quatro imagens de Finotti. (Foto: Marcelo Bernardes)

 

As outras duas fotos de Finotti na mostra são da igreja de São Pedro, na cidade uruguaia de Durázio, obra do arquiteto Eladio Dieste, e da sede da Corporação Venezuelana de Guayana, obra de Jesus Tenreiro-Degwitz. Finotti fez essas e centenas de outras fotos durante suas viagens para fotografar projetos pessoais pela América Latina e também nas saídas específicas para o MoMA. O Museu também adquiriu recentemente 15 imagens do fotógrafo nascido em Uberlândia e que farão parte do acervo permanente do museu.

 

Como surgiu o convite do MoMA para a exibição “Latin America in Construction”?

 

Em 2008, na primeira visita do (curador da exposição) Barry (Bergdoll) ao Brasil, fui convidado para mostrar São Paulo a ele. Nos conhecemos dias antes, em Brasília, num jantar na casa do (embaixador) André Corrêa do Lago. Barry visitava a cidade e eu fazia um trabalho por lá. Já, em São Paulo, o levei a todos os projetos apresentados na exposição e mais alguns. Ele viu também uma exposição que tinha feito em Lisboa, junto com minha esposa Michelle Jean de Castro, sobre a obra do Niemeyer. Barry comentou que era a exposição de fotografia de arquitetura mais interessante que havia visto. A partir daquele momento a semente estava plantada.

 

Finotti fotografou a sede da Corporação Venezuelana de Guayana, obra de Jesus Tenreiro-Degwitz. (Foto: Marcelo Bernardes)
Finotti fotografou a sede da Corporação Venezuelana de Guayana, obra de Jesus Tenreiro-Degwitz. (Foto: Marcelo Bernardes)

 

Como foi o trabalho de realização das imagens? Você tinha uma pauta específica de quais edifícios seriam fotografados, ou havia liberdade para sugestões também?

 

A lista dos projetos nunca foi fechada de fato. A cada pesquisa e viagem eram encontrados inúmeros documentos, e mais especialistas iam se juntando como consultores. O meu trabalho começou paralelamente a outros trabalhos de arquitetura contemporânea que eu ia fazendo pela América Latina. Tinha muita liberdade em sugerir projetos, mas a entrada deles na exposição não estava garantida. Ao mesmo tempo, olhava o modernismo na região desde seu início, não me limitando aos 25 anos específicos propostos pela exposição. Na verdade, criamos um trabalho autoral paralelo chamado “LAMA”, uma abreviação em inglês para “Latin American Modern Architecture”. O nome, além revisitar o modernismo latino-americano por meio da fotografia, faz uma alusão literal, em português, para o estado em que algumas destas obras se encontram.

 

Você chegou a opinar na disposição de suas fotos na exposicão?

 

Na disposição delas na exposição, não. Mas todo o resto, como as fotos que entrariam, foi discutido.Como é o caso do capítulo de abertura do catálogo, dedicado a um portfólio meu e a apresentação das fotos como objetos, e não ilustrações de arquitetura como muitas vezes a fotografia de arquitetura é tratada.

 

 

Finotti posa em frente as imagens que fez de Brasília. (Foto: Gabriel Bicudo)
Finotti posa em frente as imagens que fez de Brasília. (Foto: Michelle Jean de Castro)

 

As imagens que fez Brasília impressionam. Dada a riqueza histórica do projeto e da beleza arquitetônica do lugar, isso facilita ou dificulta seu trabalho?

 

Acho que a riqueza histórica está marcada pelas fotos em preto e branco de (Marcel) Gautherot, mostradas ao lado da construção. A arquitetura possui tempos diferentes, e o mais garantido geralmente é o da obra recém inaugurada. Fica mais difícil de surpreender ao se revisitar obras algumas décadas mais tarde. De um lado, já existe uma memória visual daqueles edifícios e, de outro, você está muito mais suscetível ao estado de conservação em que eles se encontram. Mas, é óbvio que a luz, situações e surpresas preenchem aquele novo momento em que são feitos ensaios fotográficos renovados.

 

O MoMA também adquiriu 15 de suas imagens para o acervo permanente do museu. Como se deu essa seleção, e como eles pretendem usá-las no futuro?

 

As 15 fotos adquiridas pelo museu são basicamente as do portfólio do catálogo, mais a série de Brasília que remete à minha exposição “100 Obras, 100 Anos, 100 Fotos – Oscar Niemeyer”, que aconteceu na época do centenário do arquiteto no Museu da Electricidade, em Lisboa, e que fiz com a Michelle, e na qual ela desenvolveu este conceito em que a linha do horizonte encontra a altura do olho do fotógrafo. Essas fotos poderão ser usadas em exposições futuras no próprio MoMA, ou por outras instituições que tiverem acesso ao acervo deles.

 

Imagem da Igreja em Atlantida, Uruguai, projeto de Eladio Dieste, faz agora parte do acervo permanente do MoMA. (Foto: Leonardo Finotti)
Imagem da Igreja em Atlantida, Uruguai, projeto de Eladio Dieste. (Foto: Leonardo Finotti)

 

Das imagens que fez para a exposição do MoMA, qual é a sua favorita?

 

A lateral do Congresso Nacional, porque representa melhor o meu trabalho, que, às vezes, consegue surpreender ao enxergar o óbvio de maneira distinta.

 

Quando você parte para um novo projeto fotográfico, o que costuma levar em consideração?

 

Na maioria dos ensaios que produzo, passo um dia inteiro no lugar e, com certeza, o movimento da luz é o primeiro fator determinante. Depois vem uma vivência no edifício, e finalmente situações que acontecem espontaneamente.

 

Quais são seus novos projetos?

 

Não considero este projeto como acabado e acredito que ainda virão novas exposições fotográficas com o material produzido, e que o entendimento do modernismo na América Latina está ainda bem incipiente dentro da história arquitetônica e isso, com certeza, é um grande motor. Também, novamente com a Michelle, estamos com um novo espaço no centro de São Paulo chamado LAMA.SP, que seria nosso laboratório de ideias e também aberto para outros artistas e apaixonados por arte, fotografia, arquitetura e modernismo.