MoMA apresenta a maior mostra sobre arquitetura latino-americana

Por Marcelo Bernardes

Ao visitar Brasília pela primeira vez, Barry Bergdoll, curador do Departamento de Arquitetura e Design do Museu de Arte Moderna de Nova York (o MoMA), chegou de cabeça feita. “Esperava encontrar, como cartilhas e críticos denotaram, uma apoteose de tudo o que há de errado com a modernização”, diz. “Ao ver o plano-piloto do arquiteto Lúcio Costa fiquei surpreso com a sutileza entre integração de parques, espaços públicos e urbanização, algo que jamais tinha visto”.

Com a exposição “Latin America in Construction: Architecture 1955-1980” (América Latina em Construcão), que será aberta dia 29 de março (e prossegue até 19 de junho), o MoMA não só criou a maior exposição sobre arquitetura latino-americana da história do museu, como também propõs um acerto de contas com a demonização enfrentada, principalmente pela arquitetura brasileira e mexicana, nas décadas de 70 e 80, quando estas foram chamadas pejorativamente desde “individualista” até “esbanjadora”. “Apesar de ter três bacharelados em artes, eu pouco sabia – e o que é abominável de minha parte – sobre modernismo. Essa exposição é um jeito de informar e abrir um debate sobre a arquitetura latino-americana nos Estados Unidos”, disse Barry Bergdoll.

 

O fotógrafo mineiro Leonardo Finotti contribui com vários imagens novas da arquitetura latino-americana na exposição do MoMA, incluindo esta da Praça dos Três Poderes, em Brasília.
O fotógrafo mineiro Leonardo Finotti contribui com várias novas imagens da arquitetura latino-americana na exposição do MoMA, incluindo esta da Praça dos Três Poderes, em Brasília.

A exposição do MoMA reúne a produção arquitetônica (e um pouco de design) de dez países – Argentina, Peru, Uruguai, Colômbia, Venezuela, Cuba, México, República Dominicana, Porto Rico e Brasil. E ela funciona como uma espécie de sequência a uma outra exposição feita pela própria instituição em 1955, e que acompanhava o desenvolvimento de urbanização da região a partir de 1945 “Foi uma exposição mais em estilo reportagem, baseada em fotografias, agora seguimos o jeito moderno de se fazer exposições, com mais documentação original”, explicou ao Baixo Manhattan o professor gaúcho de arquitetura Carlos Eduardo Comas, curador-convidado pelo MoMA para a parte brasileira da mostra.

A exposição tem maquetes em larga escala feitas pela empresa Constructo, dos arquitetos chilenos Jeannette Plaut e Marcelo Sarovic, e com sede em Santiago, Chile, além do departamento de arquitetura da Universidade de Miami. O fotógrafo mineiro Leonardo Finotti foi convidado pelo MoMA para tirar fotos de várias construções apresentadas na mostra e algumas delas vão fazer parte do acervo permanente do museu.

Igreja em Atlantida, Uruguai, projeto de Eladio Dieste, 1958. (Foto: Leonardo Finotti)
Igreja em Atlantida, Uruguai, projeto de Eladio Dieste, 1958. (Foto: Leonardo Finotti)

Ao todo são mais de 500 objetos expostos entre documentos, desenhos, maquetes e fotografias, que vão desde um plano-diretor do paisagista Roberto Burle Marx e o arquiteto Oscar Niemeyer para o Parque do Ibirapuera, em São Paulo, passando por uma maquete do estádio de futebol em Mendoza, na Argentina, a fotos da competição pelo projeto de construção do edifício Peugeot, em Buenos Aires. Parte desse material é ainda inédito até nos países nos quais foram originados.

Lina Bo Bardi que, por causa da comemoração de seu centenário vem ganhando maior visibilidade no exterior, também recebe destaque aqui. Recentemente, em entrevista ao Baixo Manhattan durante o lançamento de seu livro “Hot to Cold”, o arquiteto dinamarquês Bjarke Ingels disse que o prédio do Masp, em São Paulo, é um de seus cinco projetos arquitetônicos favoritos de todos os tempos.

 

Maquete do Masp, de Lina Bo Bardi. (Foto: Marcelo Bernardes)
Maquete do Masp, de Lina Bo Bardi. (Foto: Marcelo Bernardes)

A exposição do MoMA é dividida por temas sociais do período, como os planos habitacionais desenvolvidos pelo setor público nas principais capitais da América do Sul. A construção de Brasília tem uma sala especial, assim como projetos visionários dos campus das universidades do México e Venezuela. Na maior das salas está uma instalação de vídeo com sete telões (um para cada importante cidade latino-americana, entre elas Rio de Janeiro e São Paulo) mostrando um filme de quase nove minutos de duração, editado pelo cineasta e produtor de Los Angeles Joey Forsyte. Os curtas têm imagens de arquivos sincronizadas. Assim se pode ver, simultâneamente em cada um dos telões, cenas portuárias, flagrantes urbanos do centro das cidades e diversos estágios de construções arquitetônicas importantes.

Sete telões mostram imagens simultâneas de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Caracas. (Foto: Marcelo Bernardes)
Sete telões mostram imagens simultâneas de cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Buenos Aires e Caracas. (Foto: Marcelo Bernardes)

O MoMA também promove uma participação interativa, via mídia social. Pelo hashtag #arquiMoMA, o museu pede aos usuários de 13 países latino-americanos que dividam fotos atuais de alguns prédios mencionados na exposição para que os visitantes do museu possam ver como eles se parecem e se interagem com a paisagem atual. As melhores fotos serão mostradas numa parede do MoMA e também no site do museu. Para o Brasil, os locais selecionados foram o SESC Pompéia e o Masp, em São Paulo, e o Museu de Arte Moderna, o MAM, no Rio de Janeiro. “Os usuários do Instagram são bastante meticulosos e rebuscados com suas fotos, algumas chegando a requintes de enquadramento”, disse Bergdoll.

Durante a abertura da exposição para a imprensa, na manhã de hoje, o Baixo Manhattan conversou com arlos Eduardo Comas, da Universidade do Rio Grande do Sul. Abaixo trechos da entrevista.

Como foi o trabalho de curadoria para essa exposicão?

Estamos trabalhando neste projeto há seis anos. Foi um trabalho 90% baseado em arquivo. O material mostrado aqui é um garimpo, por toda a América Latina, de documentos que dessem um cunho de autenticidade ao período entre 1955 e 1980. Um dos temas mais importantes da exposição é criar uma reflexão a respeito do contexto que fez essas obras nas décadas de 50, 60 e 70 se tornarem possíveis. Também de como a região, como um todo, estava preocupada com o desenvolvimento social e cultural.

 

Maquete da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, de João Batista Villanova Artigas e Carlos Cascaldi. (Foto: Marcelo Bernardes)
Maquete da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo, de João Batista Villanova Artigas e Carlos Cascaldi. (Foto: Marcelo Bernardes)

Quais os aspectos que mais o surpreenderam durante a curadoria?
Nos últimos três anos, a cultura de arquivo, e de arquivo de arquitetura, tiveram surpreendente impulso no Brasil, tanto em termos de coleções privadas como a do Instituto Moreira Salles, a da Casa Lúcio Costa ou da Fundação Oscar Niemeyer, como também pelas bibliotecas de universidades como a Federal do Rio de Janeiro ou a de São Paulo. Uma surpresa enorme é a quantidade de material e a riqueza dos fundos manejados pelo Arquivo Público do Distrito Federal e pelo Congresso Nacional. Para mim, a surpresa mais impactante foi descobrir, nesses dois lugares, um acervo imenso que está apenas começando a ser arranhado pelos pesquisadores brasileiros.

Qual parte da exposição que o senhor acha importante?

Na sala especial de Brasília, fica um proposta muito interessante. Em uma parade você tem fotos atuais de Brasília feitas pelo Leonardo Finotti, e, de outro lado, em outra parede, você tem os desenhos de construção das cúpulas. Você vê como é que aquilo tudo fica de pé, como aquilo tudo é armado. O jogo entre exceção e a regra é impactante.

Proposta para a sede das Nações Unidas, em Nova York, por Oscar Niemeyer e Wallace K. Harrison. (Foto: Marcelo Bernardes)
Proposta para a sede das Nações Unidas, em Nova York, por Oscar Niemeyer e Wallace K. Harrison. (Foto: Marcelo Bernardes)

 

 

Como o período retratado nesta exposição informou, influenciou e impactou novas gerações de arquitetos?

Em primeiro lugar, pelo menos em termos de Brasil, há uma continuidade da tradição. Faço parte da geração da “década perdida”, ou seja, minha maturidade profissional infelizmente coincidiu com ausência de oportunidades maiores de trabalho de prancheta. Em certo sentido, a minha geração, ou alguns de minha geração, não tiveram um outro recurso para extravasar suas inquietações, a não ser entrar para a universidade. E dentro da universidade, assumimos esse trabalho de revisar, de descobrir o ‘bom, afinal, quem são nossos pais, quem são nossos avós?’ No Brasil, uma descoberta crítica foi iniciada no final dos anos 80. E, no final da década seguinte, se tem uma geração de pessoas como o Angelo Bucci, em São Paulo, e meia dúzia de outros que não caem, digamos, na sereia pós-moderna e que efetivamente não abeberam-se nessa fonte para seguir adiante. Diria que o espírito de escola que existia nos anos 60 e 70, esse se perdeu. O país é outro. Precisamos recuperar uma abordagem de realismo imaginativo, de misturar o realismo com a imaginação, e saber que, de fato, o Brasil é onde quase tudo ainda está para ser construído, de que não podemos nos dar ao luxo da desesperança.

Dos arquitetos estrangeiros atuais quem é que, na sua opinião, bebe da fonte deste período arquitetônico retratado na exposição do MoMA?

Em 2014, foi re-editado, em Chicago, o prêmio Mies Crown Hall Americas. Nessa primeira edição, 80 críticos de todas as Américas, incluindo Canadá e Estados Unidos, votaram na seleção. As duas obras premiadas, o Museu Iberê Camargo (de Álvaro Siza), de Porto Alegre, e o complexo de garagens Lincoln Road (de Herzog & de Meuron), em Miami, são trabalhos de arquitetos estrangeiros, e ambos com mais do que claríssimos DNA brasileiros.