A noite em que as modelos negras e a moda americana foram reconhecidas

Por Marcelo Bernardes

Na noite de 28 de novembro de 1973, uma quarta-feira com neve, 720 membros da elite européia e americana foram ao Palácio de Versalhes, a uma hora do centro de Paris, para assistir a um desfile de moda. Às 21 horas, quando as cortinas do teatro foram levantadas e um violino de uma grande orquestra quebrou o silêncio com a abertura de Cinderela, do compositor Prokofiev, convivas como a princesa Grace de Mônaco, o artista americano Andy Warhol e a baronesa Guy de Rothschild, presenciariam um evento seminal. Uma mistura de golpe publicitário, deliciosa batalha de egos inflados, e um dos mais involuntários atos de militância social contra a desigualdade racial nas passarelas. Também foi o momento em que a moda americana moderna passou a ser respeitada por críticos franceses. Os eventos daquela noite são contados, com requintes de detalhes, no ótimo livro “The Battle of Versailles” (A Batalha de Versalhes), da premiada jornalista de moda Robin Givhan, que chega às livrarias americanas nesta terça.

Capa do livro da escritora Robin Givhan que é lançado hoje nos EUA. (Crédito: Reprodução)
Capa do livro da escritora Robin Givhan que é lançado hoje nos EUA. (Crédito: Reprodução)

 

O evento Grand Divertissement à Versailles (Grande Divertimento em Versailhes) foi criado a fim de arrecadar fundos para a restauração do palácio que foi casa do rei Luís XIV, um projeto avaliado, na época, em US$ 60 milhões. Os convidados pagaram US$ 235 por cabeça (mais US$ 23 pelo livrinho com o programa da noite) para assistir a um duelo entre a tradição histórica e a elegância da moda francesa contra o lado industrial e confortável da americana. Cinco designers de cada país foram escolhidos por um comitê local. Cada um deles apresentou uma coleção de moda.

 

Preterindo nomes como os de Madame Grès, Jean-Charles de Castelbajac e Sonia Rykiel, a comissão francesa, que contava com Liliane Bettencourt (dona da L’Óreal) e o escritor e ex-ministro da Cultura André Malraux, selecionou o “mainstream” da indústria local: Hubert de Givenchy, Yves Saint Laurent, Emanuel Ungaro, Pierre Cardin, e Marc Bohan da maison Christian Dior. Os selecionados americanos, por comitê que incluia a ex-editora da Vogue, Diana Vreeland, e as socialites Betsy Bloomingdale e Lee Radziwill (irmã caçula da ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis), foram mais diversificados: os consagrados Bill Blass, Oscar de la Renta e Halston se juntaram a uma mulher, a designer Anne Klein, e a um emergente, o jovem designer negro Stephen Burrows, na época com 30 anos, e que a escritora Givhan descreve “como uma mistura de Alexander Wang, Hedi Slimane e Nicholas Ghesquière daquela época”. A ausência gritante da delegação americana foi o do famoso “couturier” James Galanos, cujo nome foi sugerido por Givenchy. Mas Galanos declinou o convite. “Ele não estava a fim de aturar as picuinhas que podiam acontecer quando um grupo de designers são forçados a ocupar o mesmo palco”, escreve Givhan.

 

Andy Warhol, Yves Saint Laurent e Pierre Bergé (marido do último) assistem o desfile em Versalhes, que teve apresentação de Liza Minnelli. (Crédito: Divulgação)
Andy Warhol, Yves Saint Laurent e Pierre Bergé (marido do último) assistem o desfile em Versalhes, que teve apresentação de Liza Minnelli. (Crédito: Divulgação)

 

Como era de se esperar, os preparativos para a grande noite em Versalhes, que começaram com meses de antecedência, transcorreram com tranquilidade pelo lado francês. Dinheiro também não era problema. Enquanto cada um dos cinco desfiles dos franceses tinha verba de US$ 30 mil, o orçamento total da delegação americana era de US$ 50 mil. As 36 modelos que desfilaram para os americanos ganharam apenas US$ 300 pelo trabalho e a ajuda de custo era de ínfimos US$ 25 por dia. Modelos mais caras como Lauren Hutton nem chegaram a ser convidadas.

 

O complexo de inferioridade diante dos franceses foi sentido e, desde o primeiro dia dos preparativos, os designers americanos ficaram inseguros. Ego também permeou grande parte das reuniões e ensaios. Halston, que vivia o melhor momento de sua carreira, era o mais complicado. Ele, que sempre se referia a si mesmo na terceira pessoa, ameaçou várias vezes não participar do show. Queria ser a estrela de seu grupo, e desfilar por último. Essa ordem ficou estipulada, à revelia de Oscar de la Renta, no primeiro encontro dos designers. Mas, na hora de entregar a lista de entrada de cada um aos organizadores, de la Renta sabotou o colega e inscreveu seu próprio nome para o encerramento. “Se ele (Halston) tiver algum problema com isso, que me ligue para reclamar”, disse de la Renta. Halston não protestou.

 

Os designers também concordoram que dividiriam as modelos contratadas e que, cada uma delas só poderia ser escalada, se tivesse a maioria dos votos, ou seja, três. Halston foi o único a não concordar com essas regras. Ele tinha uma patota, conhecida como “as Halstonettes” e que incluia as modelos Pat Cleveland, Beverly Johnson e Karen Bjornson.

 

Halston também tinha idolatria por Liza Minnelli, que era a estrela do momento depois de ter conquistado o Oscar de melhor atriz pelo filme “Cabaret”. O designer chamou a amiga para se apresentar na abertura dos desfiles dos americanos (os franceses trouxeram Josephine Baker para encerrar a parte deles). Oscar de la Renta não gostou da ideia, e resolveu ligar para Raquel Welch, que filmava na Espanha, para desfilar um de seus vestidos. Quando soube que Raquel estava sendo cortejada por de la Renta, Liza ameaçou cancelar sua participação. “Não vou cantar a plenos pulmões enquanto Raquel desfila e ganha todos os elogios”, disse Liza. Raquel não desfilou.

 

Um dos momentos mais importantes do evento foi a ideia dos americanos de diversificarem suas modelos. Das 36 escolhidas, dez eram negras, uma proporção étnica que nem em dias atuais é vista nas passarelas de Paris, Milão e Nova York. Halston chamou Charlene Dash, uma modelo de 20 anos que já tinha aparecido na Vogue e sido fotografada por Richard Avedon. A modelo trabalhou abaixo da tabela. Outras modelos negras escaladas para o desfile foram Billie Blair (em sua primeira viagem a Paris), Norma Jean Darden (que chegou a protestar publicamente contra o fato de a revista Harper’s Bazaar não estar usando modelos negras na época), Alva Chinn (uma das Halstonettes também reverenciada por de la Renta e Bill Blass), Ramona Saunders e Jennifer Brice. “Versalhes abriu todas as portas (para as modelos negras)”, escreve Givhan. “Nos anos 70, a adoção das modelos pela indústria, que tinha começado como um processo de engenharia social, vinha fluindo continuamente. Elas se tornaram estrelas e tiveram uma presença dinâmica que ficou em demanda por quase uma geração”.

 

As modelos Karen Bjornson (usando vestido Halston) e Ramona Saunders (em roupa de Stephen Burrows). (Crédito: Bill Cunningham/Divulgacão)
As modelos Karen Bjornson (usando vestido Halston) e Ramona Saunders (em roupa de Stephen Burrows). (Crédito: Bill Cunningham/Divulgacão)

 

Muito longe da experiência forçadamente comportada em vôos comerciais de hoje, o avião da Olympic Airways, que levou todas as modelos para Paris, foi palco de uma farra aérea, apesar de ser um vôo com os mais diversos tipos de passageiros. No fundo do avião, uma fumaça espessa se formou, vindo do cigarro de maconha que as modelos fumavam. Elas também escandalizaram as comissárias de bordo ao exporem as bundas durinhas, enquanto dançavam pelos corredores.

 

Em Paris, os designers americanos foram tratados com pompa e circunstância. Pierre Cardin mandou entregar orquídeas no quarto deles no hotel Plaza Athénée. Givenchy colocou a disposição deles seu ateliê para os últimos ajustes. Várias festas pré-desfiles foram organizadas, incluindo uma concorrida para 220 pessoas, em homenagem a Liza Minnelli, no restaurante Maxim’s.

 

Um sentimento foi compartilhado pelos designers franceses e americanos desde o início: desdém pela seleção da única mulher daquele grupo dos dez mais. Por ser considerada uma designer que criava uma moda prática, simples e comercial, as criações de Anne Klein eram consideradas “entediantes”. Klein ainda desafiava as regras da indústria ao fazer que suas roupas de tamanho 42 tivessem etiqueta de tamanho 40. Tal psicologia e praticidade a ajudaram a ter, na época, vendas anuais de US$ 50 milhões. Pierre Bergé, marido e sócio de Yves Saint Laurent, não queria Klein no desfile. Oscar de la Renta defendeu a companheira, dizendo “que ela também era uma designer de prêt-à-porter e era importante parte de nossa indústria”. Bergé mandou um telegrama de volta dizendo que os franceses iam aceitar Klein em respeito a de la Renta.

 

Nos dias que passou em Versalhes, Klein foi menosprezada. As opininões dela não foram consideradas e a oficina de trabalho dela ficou confinada a um espaço no sótão do palácio. “Ela foi tratada de um modo rude –muito além de grosseria”, diz a designer Donna Karan, que era assistente de Klein na época. Ironicamente, Klein era a mais justa dos designers, chegando a pagar, do próprio bolso, estadia extra em Paris para as modelos que desfilaram sua coleção.

 

Yves Saint Lauren em festa pré-desfile no Maxim's. (Crédito: Divulgação)
Yves Saint Lauren em festa pré-desfile no Maxim’s. (Crédito: Divulgação)

 

Na noite do desfile, a princesa Grace de Mônaco chegou usando vestido da (preterida) Madames Grès, assim como Paloma Picasso (num vestido drapeado que Grès fez para a mãe da artista, nos anos 50). A Duquesa de Windsor, de Dior, ostentava grandes jóias com safira, e Andy Warhol se sentou no mesmo camarote do teatro com Yves Saint Laurent e Bergé. O fotógrafo do New York Times Bill Cunningham fazia as fotos de bastidores. Com direito a participação da atriz Capucine no desfile de Givenchy e de Jane Birkin e Charles Jourdan no de Ungaro, além de um solo de balé de Rudolf Nureyev, os franceses fizeram um show grandioso. Mas foram os americanos que vieram roubar a noite com as modelos étnicas, coreografia ultra moderna e uma trilha sonora diferente que incluia Barry White (no desfile de la Renta), Al Green (Burrows) e a música do filme gay “Scorpio Rising”, de 1964 (Klein). “No final daquela noite, os designers americanos passaram de capitalistas engenhosos para serem reconhecidos como inovadores, criativos e importantes”, diz Givhan. O evento arrecadou um total de US$ 280 mil, ou US$ 1.5 milhão em números atuais.

 

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