Vigilância sobre cidadãos chegou a nível sem precedentes, diz especialista

Por Milly Lacombe

Era para ser um livro de reflexão e debate, mas “Data and Goliath: The Hidden Battles to Collect Your Data and Control Your World”, ou, em tradução livre, “as batalhas secretas para coletar seus dados e controlar seu mundo”, que chegou ao sexto lugar da lista de livros mais vendidos do New York Times, começa a deixar muita gente apavorada.

Nele, Bruce Schneier, especialista em segurança de computadores e que há dez anos investiga o assunto, explica que nunca antes os Estados Unidos atingiram esse nível de controle e vigilância sobre a população, e que a parceria entre a vigilância que o governo faz e aquela que as corporações fazem precisa ser debatida urgentemente.

No livro, Schneier argumenta que enquanto o governo americano jura que a vigilância é em nome da segurança e visa evitar ações terroristas não há nehuma comprovação de que isso seja verdadeiro, sequer efetivo, e que toda vez que o governo é pressionado a dar exemplos de que tipo de crimes foram evitados com a vigilância, ele acaba sem resposta.

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Schneier diz que uma perigosa associação entre governo e corporações tem sido usada para negociar dados coletados a partir do controle que se faz sobre o uso de celulares, emails, internet, cartões de crédito etc.

Segundo o autor, essas informações são usadas para fins comerciais e diariamente governo e corporações negociam esses dados, comprando e vendendo entre eles, alguns altamente pessoais.

Pior: esses dados geram perfis, e esses perfis são usados para que decisões sobre a vida dos cidadãos sejam tomadas. Ele dá exemplos: não conseguir um empréstimo, ou ser desautorizado a entrar num avião. Schneier explica que o cidadão nem fica sabendo que foi julgado, não pode sequer olhar os dados coletados, corrigi-los, se defender. É, segundo ele, um julgamento que está ocorrendo em segredo.

Ele diz que sabe que é impossível que paremos de usar os celulares que rastreiam nossos passos, ou de entrar no Facebook que coleta o que pode a nosso respeito, ou de navegar pela Internet, mas argumenta que é importante que o americano comum saiba que está sendo tudo rastreado, coletado e armazenado: sites que ele acessa, quanto tempo fica em cada um, livros que são baixados, quantas páginas do livro foram lidas, o que se comsome, como se consome, onde se consome, onde se vai, para quem se liga etc, e que usa-se tudo isso comercialmente.

Mas o mais grave para ele é a filosofia por trás das ações. O governo diz que quem não tem o que esconder não tem o que temer. Mas privacidade, ele explica, não é não ter segredos. Privacidade é autonomia individual, é como você se relaciona com o mundo, é sobre ter controle o que se quer revelar sobre si mesmo. A vigilância, ele diz, nos priva de liberdade. E completa: privacidade é um direito fundamental.