Tradutor de Proust para o inglês ganha biografia

Por Milly Lacombe

Existem algumas palavras-chave que, quando pronunciadas, têm a capacidade de conquistar minha total atenção, como por exemplo Corinthians, doce-de-leite e Proust. Por isso, quando na sexta-feira passada meu parceiro Marcelo Bernardes, o homem melhor informado dessa ilha, ligou para dizer que um novo livro relacionado a Proust chegaria nessa terça às livrarias imediatamente fiz uma anotação mental para ir adquirir o meu exemplar pela manhã. Cheguei tão cedo à Independent Booksellers, no Soho, que os livros ainda estavam dentro de caixas. O vendedor perguntou se eu poderia esperar até que elas fossem abertas, e eu disse, sim claro.

O livro em questão de chama “Chasing Lost Time”, em tradução livre alguma coisa como “perseguindo o tempo perdido”, uma referência ao nome dado à obra-prima de Marcel Proust na edição em inglês (“In Seach of Lost Time”, ou “Em Busca do Tempo Perdido”).

Trata-se da biografia do mais famoso tradutor de Proust para o inglês, C.K Scott Moncrieff, escrita por sua sobrinha-bisneta, Jean Findlay. O interesse sobre a vida do escocês C.K (1889-1930), conterrâneo de Proust, não vem apenas do fato de ele ter se entregado a essa colossal e extenuante tarefa de traduzir as três mil páginas de “Em Busca do Tempo Perdido”, mas também da vida peculiar que levou: soldado, heroi de guerra, espião, tradutor, católico, homossexual e, claro, polêmico.

Em relação à obra de Proust, a polêmica começa logo pelo título que Moncrieff escolheu dar à edição inglesa, e que Proust detestou: “Remembrance of Things Past”, que em tradução livre seria “Lembrança de coisas passadas”.

Proust achava que a frase significado diferente de “In Search of Lost Time”, ou “Em Busca do Tempo Perdido”, que era uma tradução mais fiel ao título que ele escolheu dar, “À la recherche du temps perdue “, e reclamou da escolha do tradutor em carta enviada a Moncrieff (Proust morreria com a impressão que Moncrieff sequestraria partes de sua obra).

De fato os significados são diferentes, e muitos acham que a escolha de Moncrieff é mais adequada (não eu, que considero o título de Moncrieff pior). De qualquer forma, nasce desse tipo de análise e controvérsia a fama de Moncrieff: a de ser um gênio da tradução proustiana, e de conseguir dar ainda mais significado e emoção a alguns trechos da obra de Proust.

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Outra polêmica vem logo depois do título: a primeira frase.

”Longtemps, je me suis couché de bonne heure” foi o que Proust escreveu e que Moncrieff traduziu para “For a long time I used to go to bed early” (“Durante muito tempo costumava ir para a cama cedo”), e que Lydia Davis, escritora americana e também tradutora de Proust para o inglês, anos depois mudou para “For a long time I went to bed early”, em tradução livre: “Durante muito tempo fui para a cama cedo” (em português adotamos uma forma mais conservadora inspirada em Moncrieff: “Durante muito tempo, deitava-me cedo.)

Moncrieff e Proust tinham mais em comum do que poderiam supor, e não apenas pela homossexualidade.

O escocês decidiu traduzir a enorme obra mesmo sem ter uma editora interessada em publicá-la na Europa, assim como Proust escreveu sem que houvesse um editor que topasse lançá-lo na França. Tempos depois, F. Scott Fitzgerald diria que a tradução de Moncrieff era uma obra-prima em si mesma.

Eu, que considero a leitura de “Em Busca do Tempo Perdido” uma experiência transcendental e obrigatória, me entreguei à obra em português e depois em inglês e acho que a versão de Moncrieff em muitos trechos foi mais impactante do que a que li em português.

Aliás, foi na segunda leitura que finalmente entendi como exatamente Proust emprestou sua genialidade também para o humor.

Trechos como “Eu amava verdadeiramente a sra. de Guermantes. A maior felicidade que poderia pedir a Deus seria que fizesse tombar sobre ela todas as calamidades e que, arruinada, desconsiderada, despojada de todos os privilégios que dela me separavam, não tendo mais casa onde morar, nem pessoas que consentissem em saudá-la, viesse pedir-me asilo” mostram a sutileza do humor proustiano.

Seja como for, e na língua que der, o importante é ler as três mil páginas e entender por que Proust é para muita gente, eu entre elas, o maior escritor de todos os tempos. E por que a vida de um de homem que dedicou boa parte de sua existência a traduzir a obra de Proust pode render biografia própria.