O fenomenal estilo de Lauren Bacall está à venda (e em exibição) em NY

Por Marcelo Bernardes

A atriz Lauren Bacall, que morreu em agosto, aos 89 anos, vítima de um derrame, ficou conhecida em suas sete décadas de atuação no cinema e na Broadway como uma estrela de “glamour provocante”. A voz gutural dela, realçada por poses de enérgica sensualidade – já evidenciadas desde seu primeiro filme, “Uma Aventura na Martinica”, baseado em livro de Ernest Hemingway – levou um crítico a compará-la a “um grito de cio na selva”. Parte desse estilo particular de Bacall é mostrado a partir de hoje, terça-feira, com a abertura da exposição “Lauren Bacall: The Look (Lauren Bacall: O Visual)” no Instituto de Moda e Tecnologia (FIT, sigla em inglês), que fica no bairrro novaiorquino do Chelsea. Nos dias 31 de março e 1o. de abril, mais uma faceta do gosto pessoal da atriz é revelada, quando a casa de leilões Bonhams, coloca à venda, em Nova York, centenas de obras de arte e jóias acumuladas pela atriz.

Bacall fenomenal (Crédito: Kobal Collection)
Bacall fenomenal (Crédito: Kobal Collection)

 

No período entre 1968 a 1986, Bacall doou cerca de 700 peças de seu guarda-roupa particular e também provenientes dos sets de seus filmes e de várias peças que estrelou na Broadway. Desse total, uma dúzia de roupas, entre tailleurs e vestidos de noite, fazem parte da exposição do FIT. Nos anos 50 e 60, Bacall ficou amiga de alguns designers de moda, especialmente de Norman Norell e Yves Saint Laurent. Mais tarde se juntaram ao círculo íntimo da atriz nomes como Pierre Cardin, Marc Bohan (que assumiu o controle criativo da Christian Dior em 1958) e Emanuel Ungaro, este último responsável em cultivar o gosto específico da atriz por roupas elegantes, mas com uma predominância pela alfaiataria masculina. É de Ungaro as calças pantalonas de seda que Bacall adorava usar nas últimas décadas de vida.

 

Bacall uma vez disse que “odiava desfiles de moda”, mas ela também era ciente dos efeitos benéficos dessa indústria. “Pode parecer frívolo – mas não é. (Moda) é base de uma indústria de US$ 18 milhões somente nos Estados Unidos. Cria um monte de empregos para um monte de pessoas, e é algo que as mulheres sempre cobiçam”, diz ela, em discurso que parece ter saído de uma editora de revista de moda, num especial TV, de 1968, chamado “Bacall and the Boys” (Bacall e os meninos). Neste programa, gravado em Paris, exibido pela rede CBS, e com trechos revelados na exposição, Bacall mostra a coleção de inverno daquele ano dos designers Bohan, Saint Laurent, Ungaro e Cardin. Ela anda de Rolls Royce com Saint Laurent e mais tarde se enfia dentro de um vestido preto de seda adornado por penas de avestruz, criação de Marc Bohan para Dior e disponível na exposição.

Vestido de noite de Marc Bohan para Christian Dior, em exposição no Instituto de Moda e Tecnologia (FIT) (Crédito: divulgação)
Vestido de noite de Marc Bohan para Christian Dior, em exposição no Instituto de Moda e Tecnologia (FIT) (Crédito: divulgação)

Apesar de uma carreira cultuada em Hollywood e de participar de clássicos do cinema como “À Beira do Abismo” (1946), “Paixões em Fúria” (1948) e “Como Agarrar um Milionário” (1953), o talento de Bacall nunca foi reconhecido pela Academia de Hollywood. A única indicação para o Oscar que ela recebeu – de coadjuvante – aconteceu apenas em 1997, com o filme “O Espelho Tem Duas Faces”, dirigido por Barbra Streisand. Bacall era a favorita afetiva daquela categoria, mas teve que amargar a surpresa de perder seu Oscar para uma azarã, a atriz francesa Juliette Binoche, que venceu por “O Paciente Inglês”. Em 2009, Bacall recebeu seu primeiro Oscar, uma estatueta honorária. Na Broadway, as coisas era bem diferentes para Bacall. Ela ganhou dois prêmios Tony, por duas adaptações de filmes de Hollywood: “Applause!”, baseado em “A Malvada” e “A Mulher do Dia”, tirado de um filme homônimo estrelado por Spencer Tracy e Katherine Hepburn, em 1942.

 

Nesses espetáculos, Bacall foi vestida pelo amigo Norman Norell, que também assina um dos principais modelos da exposição, um casaco de lã em rosa quase fosforecente que ela usou, sobre um vestido de duas peças da mesma cor, em cena do filme “Médica, Bonita e Solteira” (1964), no qual Natalie Wood interpretava uma personagem pré-Carrie Bradshaw.

 

Bacall em dois tons de rosa: vestidos de Pierre Cardin e conjunto de lå de Norman Norell. (Crédito: divulgação)
Bacall em dois tons de rosa: vestidos de Pierre Cardin e conjunto de lå de Norman Norell. (Crédito: divulgação)

Como deixa evidenciado o leilão da casa Bonhams, no dia 31 de março, Bacall era uma grande colecionadora de arte e antiguidades. A empresa leiloeira vai tentar vender um lote de 700 itens, vindos da casa que Bacall dividia com o primeiro marido, o ator Humphrey Bogart (eles foram casados por 12 anos), em Los Angeles, e também do apartamento de três quartos de propriedade da atriz no infame prédio Dakota, residência também de John Lennon e locação para o filme “O Bebê de Rosemary”. Desde 1961, quando comprou o apartamento por apenas US$ 48 mil, que Bacall voltou a morar na cidade onde nasceu (ela é do Bronx). Em novembro, quase três meses após a morte da atriz, o apartamento foi colocado a venda por US$ 26 milhões.

 

Sala principal do apartamento da atriz no famoso prédio Dakota (Crédito: Divulgação)
Sala principal do apartamento da atriz no famoso prédio Dakota (Crédito: Divulgação)

A Bacall colecionadora era bastante afeiçoada pela arte tribal da África, com a qual ela tomou conhecimento depois de passar um período no Congo e Uganda, enquanto o marido Bogart rodava “Uma Aventura na África”, com Katharine Hepburn e sob direção de John Huston. Esculturas de ambas as residências vieram de artistas como Henry Moore, que ela conheceu em Paris em 1975, e Robert Graham, marido da atriz Anjelica Huston.

 

Escultura de Henry Moore e móvel de arte tribal que a atriz adquiriu na África (Crédito: Divulgação)
Escultura de Henry Moore e banco Ashanti, um dos móveis de arte tribal que a atriz adquiriu na África (Crédito: Divulgação)

Bacall tinha também ótimo relacionamento com o designer de jóias Jean Schlumberger, do qual ela adquiriu várias peças ao longo dos anos. Uma das preferidas da atriz era um brinco de pedras preciosas, avaliado entre US$ 7 mil a US$ 9 mil, que ela usou na cerimônia do Globo de Ouro, em 1997, quando foi indicada (e venceu) a um prêmio de atriz coadjuvante por “O Espelho Tem Duas Faces”. O leilão também contem outras jóias como um colar Tiffany’s (US$ 6 mil a US$ 9 mil) que ela ganhou de presente do diretor da peça “Applause”.

 

Leilão de itens das casas de Bacall: colar Tifanny's e brinco do amigo Jean Schlumberger (Crédito: Divulgação)
Colar Tifanny’s e brinco do amigo joalheiro Jean Schlumberger (Crédito: Divulgação)

 

Entre coleção de malas Louis Vuitton, litografias de David Hockney e artefatos de cerâmica feitos por Pablo Picasso, existem artigos curiosos como um escultura de bronze de Bogart caracterizado como Sam Spade, do filme “Casablanca” (avaliado em US$ 600 a US$ 800) e um chapéu que o ator Henry Fonda, amigo da atriz, usou no primeiro dia de filmagens do filme “Num Lago Dourado”. Na sala do prédio Dakota, onde Leonard Bernstein tocava piano depois de jantares com a amiga, está uma gravura de um pelicano assinada por John James Audubon Etching. O elegante pássaro era o animal preferido da atriz.

 

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Uma das gravuras de pelicano da coleção da atriz e cerâmica de Pablo Picasso (Crédito: Divulgação)
Uma das gravuras de pelicano da coleção da atriz e cerâmica de Pablo Picasso (Crédito: Divulgação)